Texto: Nove de Agosto

Os sapatos velhos e surrados soavam e ecoavam ao encontrar o chão. Ao alcançarem o devido destino eles se acomodaram, e o corpo por eles sustentado sentou-se naquele banco antigo e habitual da praça. A madeira rangeu lentamente com o peso daquele senhor de óculos e de cabelos grisalhos, com a pele já enrugada e com rosto de avô carinhoso.
O senhor dobrou uma das pernas em cima da outra e posicionou as mãos unidas no colo. Ficou estático por algum tempo, observando partículas de ar moverem-se de um lado para o outro com seus olhos irrequietos. Uma borboleta laranja desbotada e com contornos pretos pousou no galho da árvore ao lado e pareceu observá-lo.
A cidade foi acordando lentamente e abrindo as janelas. Era nove de agosto novamente. Do outro lado da praça, através das janelas, era possível ver o bom velhinho sentado sozinho em um banco da praça central da cidade. Nos três primeiros anos aquilo pareceu insanidade de um senhor que, pobrezinho, já caducava. Mas agora, passados dez anos de sua mudança para aquela cidade minúscula do interior, a pitoresca cena de nove de agosto já fazia parte do cenário. Era quase que um evento para os moradores: os mais velhos intrigados com o motivo que levava aquele homem a passar o dia todo naquele banco, divertindo-se como se tivesse vinte anos novamente; os mais jovens, um tanto impacientes, alguns até zombeteiros; as crianças, muitas delas surpresas, cheias de questões as quais o homem não dava atenção.
Mais de meia hora se passou até que ele começou a falar sozinho. Todo ano o mesmo ritual: ele acompanhava o vazio com o olhar, fazia sinal como se chamasse alguém, pedia-lhe que sentasse ao seu lado. Descruzava as pernas, insistia no convite. Levantava-se, curvava-se como que a cumprimentar alguém e botava-se sentado mais uma vez. Ficava alguns minutos quieto, até que começava a falar mais uma vez e então ria-se e surpreendia-se com algo desconhecido por todos.

***

Ele abriu a janela naquela manhã resoluto e corajoso. Tinha finalmente decidido que iria conversar com a garota nova da cidade! Inspirou o ar com bastante força e sorriu com a certeza de que aquele dia seria o dia dele.
Colocou suas melhores roupas: separou a camisa e a calça que usaria na missa do dia seguinte e resolveu dar um melhor uso para elas na arte da conquista. Separou o casaco do paletó que usara no casamento de uma velha tia e que já estava ligeiramente apertado, mas nada que se pudesse notar. Calçou os sapatos e saiu em direção à praça.
Era dia nove de agosto, um sábado. Ela sempre passava por lá aos sábados! Sentou-se no banco central, cruzou as pernas e posicionou as mãos unidas no colo. Passou alguns minutos observando o vazio com ansiedade. Uma borboleta de um rosa vivo pousou na árvore ao lado, pegou uma folha que jazia no galho e, ligeira, alçou voo novamente.
Era ela! Ela passaria por ali em alguns minutos! Ah, o coração acelerado, a respiração ofegante e descompassada, aqueles sintomas de amor. Ele seguiu a silhueta dela com o olhar e finalmente conseguiu dizer umas poucas palavras:
– A senhorita vai passear pela praça da cidade e nem vai se apresentar para o morador que ainda não conhece?
Ela olhava um pouco confusa e constrangida para aquele jovem rapaz, como se tivesse cometido a maior gafe da qual se tivesse conhecimento.
– A senhorita não está com pressa, está?! Vamos, sente-se ao meu lado, faça-me companhia e me conte um pouco mais sobre o rosto que, apesar de novo, já conquistou o posto de mais belo da cidade.
– Ah, não sei se devo… – respondeu a garota, com as bochechas coradas.
– Mas que mal tem se apresentar para o vizinho? Vamos! Aceite o convite!
Ele então se levantou e estendeu os braços para o lugar vazio no banco em que estava sentado. À medida que ela se aproximava e aceitava o convite, ele curvava-se para cumprimentá-la cordialmente. Os dois sentaram-se e ficaram em silêncio por algum tempo, até que ele puxou assunto e eles engrenaram uma longa conversa, que foi ficando cada vez mais íntima e amigável. Acharam-se conversando até o pôr do sol, quando ambos despediram-se um do outro e tomaram o caminho de casa, com a certeza de terem encontrado suas respectivas almas gêmeas.

***

O pôr do sol já dava sinais de que despontaria a qualquer minuto. A cidade já estava mais quieta, cada qual a seu canto, com exceção de algumas crianças que ainda admiravam aquele espetáculo do senhor caduco que conversava com uma pessoa inexistente.
– Ei, o senhor sabe que não tem ninguém aqui, não é?! – perguntou um garotinho que apoiava a cabeça no braço do banco.
O senhor lentamente voltou da dimensão paralela na qual se encontrava, piscou freneticamente e então olhou ternamente para o garotinho, com um meio-sorriso no rosto, para dizer:
– Há coisas que só algumas pessoas podem ver. Tem uma pessoa sentada aqui, mas só eu posso vê-la. É como se fosse minha amiga imaginária, entende?
O senhor então deixou o banco e levantou-se em direção a sua velha casa. Ao entrar, olhou atentamente para o retrato de seu casamento com aquela bela jovem com a qual falara há poucos minutos. Sentou-se na poltrona, pegou o retrato, colocou-o contra o peito e disse:
– Ah, aquele nove de agosto…
A borboleta que pousara na árvore durante a manhã então deixou o galho, foi até o chão e agarrou uma folha que jazia caída no chão. Lentamente e com fraqueza ela foi tentando planar sobre a cidade, levando a folha sempre consigo.

Fazia tempo que eu não escrevia um texto assim, cem por cento fictício e sem qualquer relação com a minha vida… espero que tenham gostado, porque eu adorei escrevê-lo! ^^

4 comentários sobre “Texto: Nove de Agosto

    • Nem tinha reparado nessa coincidência hahahaha
      Peguei a data aletoriamente. Eu ia pegar nove de setembro, mas achei que 09/09 ficava uma data muito redondinha! E não, não tem nada de especial sobre o número nove, também é aleatório! ^^

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