Texto: O Telefonema

Ela não costumava acordar antes das oito da manhã, mas naquele dia abrira uma exceção. Às sete já estava de pé e de banho tomado, sentada em frente à mesinha do telefone. Não tirava os olhos dele. Se seu olhar fosse um fuzil, já teria destruído todos os apartamentos abaixo do dela só com aquele olhar fulminante em direção ao telefone.
Telefone. Aquele aparelhinho tão comum, tão simplório, que ela nem sequer gostava! Mas ela precisava olhá-lo. Quanto mais olhar, mais rápido ligarão. Não importa que o horário comercial ainda nem tenha começado. Talvez algum deles tenha chegado mais cedo e então decidido ligar…
Triiiiiim.
– Alô?
– Alô filha? Tudo bem?
– Tudo, mãe… – respondeu em tom enfadonho, suplicando mentalmente para que a mãe entendesse o recado sutil e desligasse logo.
– Que bom, minha filha. Como vão as entrevistas? Alguma novidade?
– Não. Na verdade, eu estou esperando uma…
– Ah, então minha filha, eu pesquisei algumas lojas de aluguel de vestidos pro casamento da sua prima, daí achei uma que tem uns vestidos muito bonitos – a mãe era interrompida por incessantes “ahams” da filha – Quer o endereço?
– Mãe, será que você não poderia ligar outro dia para passar esse endereço? Pensando melhor: eu te ligo, ok?! Pode ser assim?
– É rapidinho, filha, anota aí. Tem uma caneta e um bloco por perto?
– Tenho sim – ela não tinha, nem queria anotar. Ligaria outra hora dizendo que tinha perdido a folha. Ou então procuraria outra loja, já que os gostos dela e da mãe nunca batiam em relação a vestuário. Só queria encerrar aquela ligação.
– Anotou?
– Anotado!
– Ok, meu benzinho. Me avisa se tiver alguma novidade, tá?!
– Certo.
– Beijo, mamãe te ama, viu?! Tô com saudades!
– Beijo, também te amo, a gente se fala outro dia pra matar as saudades.
Desligou. Olhou para o relógio, temerosa de que já tivesse passado muito das oito. Ainda faltavam quinze minutos pras oito horas. Suspirou bem fundo e ajeitou-se na cadeira. Apoiou a cabeça em uma das mãos e voltou a fitar incessantemente o telefone em silêncio.
Nas horas que se seguiram, ficou irrequieta: trocou a posição dos braços e das pernas, levantou-se, andou em volta da mesa do telefone, voltou a sentar-se. Checava constantemente o relógio na parede: os minutos demoravam a passar!
Era por volta de meio-dia e meia quando o telefone tocou novamente, uma vez só. Atendeu prontamente, com o coração palpitante:
– Alô?
– Oi, amor.
– Oh céus… – pensou alto.
– Que foi? Tá tudo bem?
– Tá, tá sim, amor. É que eu tô esperando uma ligação.
– Ah, sim. Quer que eu ligue daqui a pouco?
– Não ligue hoje!
O silêncio mortal que se seguiu a assustou. Ela sabia que tinha dito por impulso, ela entendia o sentido por trás do que dissera, mas sabia também que ele não entenderia. Então, por mais que não quisesse que ninguém a incomodasse naquele dia, procurou retratar-se.
– Quer dizer, também quero falar com você, mas essa ligação pode ocorrer a qualquer hora, não posso me dar ao luxo.
– Posso ir aí de noite, então?
– Pode… – disse hesitante. Não estava feliz com aquilo, mas talvez a presença dele ajudasse a distrair.
– Ok, então quando der umas sete eu passo aí pra jantarmos e vermos um filme, tudo bem?
– Tudo.
– Te amo, até mais tarde.
– Até. Também te amo.
Respirou fundo e pensou por um momento em como, ao mesmo tempo, seria terrível tê-lo por perto. Não poderia dar a devida atenção, muito embora o horário fosse ótimo.
Já passava das três da tarde quando se lembrou de que deveria almoçar, ou ao menos tentar comer algo. Foi até a cozinha e rapidamente preparou um misto frio. Quase cortou os dedos junto com o pão. Voltou correndo para a mesa do telefone e comeu ali mesmo.
Cinco horas. Talvez o horário deles fosse mais elástico. Talvez trabalhassem até as seis. Quem sabe até as sete?  Permaneceu ali, quase estática, desacreditada de que fossem realmente cinco horas. O tempo passou tão rápido…
Tinha perdido totalmente a noção do tempo e olhava absorta para o relógio quando a campainha tocou. Ficou um tempo em dúvida sobre quem poderia ser até lembrar-se de seu namorado. Foi abrir a porta.
– Oi, amor! Vamos comer primeiro? Ou prefere ver o filme?
– Oi… É… Não sei… Tanto faz… – ainda estava meio atônita.
– Vamos ver o filme primeiro. Você está com uma cara estranha. Tá tudo bem?
– Tá, tá sim.
Durante boa parte do filme, ela não tirou os olhos do telefone. Sabia que provavelmente não ligariam mais, mas ainda estava aflita. Ele pausou o filme e ficou um bom tempo olhando para ela, sem que ela percebesse.
– Você sabe que eles não vão ligar mais, não é? Que o horário comercial acabou?
– Sei
– Então deixe quieto, amanhã te ligam. Mas afinal, de quem é essa ligação?
– Hã? Ah, é… É de… – pigarreou um pouco e a fala não saiu. Suspirou.
– Ok, é o seguinte: não vou ficar aqui sendo que você finge que nem existo. Ou você esquece esse telefonema ou eu vou embora.
Como não obteve resposta, ele pegou o casaco que estava pendurado na cadeira e disse num tom de voz mais alto:
– Se você tiver alguma intenção de voltar a falar comigo, me procure, ok?! – saiu e bateu a porta.
Ela queria dizer algo. Queria ir atrás dele e não deixá-lo ir embora. Mas estava de certa forma aliviada com sua ausência. Amanhã daria um jeito nisso. Ou talvez outro dia, depois que ligassem.
Nem sequer jantou naquela noite. Sentou-se novamente em frente ao telefone e ficou lá por um bom tempo, quase que imóvel. Quando deu por si, era quase meia-noite. Mas não queria ficar longe do telefone. E se alguém tivesse se debruçado sobre seus trabalhos e estivesse acordado até àquela hora, analisando tudo minuciosamente? Poderiam ligar de casa, para dizer-lhe que estava tudo ótimo. Ou que estava tudo péssimo. Apagou a luz e deixou somente o abajur ligado, olhando para aquele aparelho e esperando, esperando…
Acordou de um sobressalto com o barulho do telefone. Levantou-se rapidamente, empertigou-se e atendeu ao telefone, a voz ainda um pouco rouca.
– Alô?
– Bom dia, é da casa da senhorita Clara Muniz?
– Sim, sim, sou eu.
– Olá, bom dia, Clara! A senhorita pode falar ou é muito cedo?
– Não, pode falar, sou toda ouvidos.
– Certo. Meu nome é Júlia Rodrigues, sou a editora que está cuidando do seu texto. Será que a senhorita poderia me enviar o próximo capítulo? Achei a ideia do romance interessantíssima!
Ela abriu um enorme sorriso.

Mais um texto fictício para vocês, meus caros leitores. Não digo que ele não tenha qualquer relação com a minha vida porque, afinal de contas, ainda tenho pretensões de estar dos dois lados dessa história, tanto da autora quanto da editora.
Espero que tenham gostado ^^

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