O Anonimato do Cotidiano

Sempre tive uma imaginação meio fértil, daquelas que fica divagando sobre tudo e sobre qualquer coisa. Acho que é exatamente por esse motivo que, com razoável frequência, eu fico observando de soslaio as pessoas por aí e criando toda uma história pra elas, às vezes com prólogo e epílogo bem elaborados.
Eis que um dia me peguei pensando sobre quantas histórias de vida passam por uma estação de metrô, ou pelas catracas de um ônibus. Todas aquelas pessoas tão diferentes, algumas entregues aos seus pensamentos, outras os dividindo com alguém. O que será que existe por detrás de cada rostinho daqueles?
São tantas histórias para imaginar: das pessoas sempre com os celulares a postos, ligando e mandando mensagens, às vezes falando alto, às vezes sorrindo em silêncio; daqueles que lutam contra o sono, talvez porque tenham ficado até tarde fazendo qualquer coisa que seja, importante ou não; daqueles que, como eu, leem, estudam, e por vezes até arriscam-se a escrever, mas acabam somente rabiscando por aí.
O que pensava a pessoa que escreveu um recado no banco da frente, na janela ou da porta? Qual a concentração que aquela jovem aplica no ato de tentar não derramar o sorvete na roupa ou no banco? Como aquela janela pode transformar tantos pensamentos em filosofias complexas todos os dias? Como funciona a mente daquela pessoa que ouve a música sem fone de ouvido, cantando a plenos pulmões?
E aquele casal naquela tarde chuvosa e interminável de segunda, são só amigos? Namoram? Algum deles sofre apaixonado em silêncio? Aqueles dois que dormem tranquilamente encostados um no outro, pra onde será que vão? Os que precisam se afastar pouco antes do embarque, como se sentem? O que significa a troca de olhares entre aquele casal que, não achando local para sentar, fica de pé, com as mãos enlaçadas segurando o corrimão, naquela quarta logo no comecinho de março?
E as famílias? Aqueles pais que tentam em vão controlar seus filhos, como se comportam em casa? E aqueles outros, no inverno, que carregando uma criança no colo, perguntam ao cobrador qual o ponto mais próximo do hospital? E as crianças que, ao contrário daquelas outras, vão quietas e concentradas no caminho?
Como são as amizades? Aquelas pessoas que acabaram de se conhecer e compartilhar suas histórias de vida naquele fim de manhã ensolarado, será que se encontrarão novamente em uma esquina qualquer? O que será que tentam dizer aquelas duas garotas, cada uma de um lado da janela, tentando utilizar linguagem labial? E por que falam tanto e sempre sobre livros aquelas duas amigas que conversam nos bancos do metrô?
Quando não tenho meus livros e textos pra ler, gosto de tentar responder essas indagações com meus devaneios. Fico me questionando se alguém olha para mim e pergunta-se alguma dessas coisas, também. São milhares, milhões de vidas que passam por nós, apressada ou calmamente, em todos os lugares por aí. Quem sabe algumas delas dessem boas crônicas. Outras gerassem bons contos. E algumas pudessem até se transformar em grandes e belos romances. Quem sabe? Eu não sei. Nunca saberei nem ao menos seus nomes, tampouco suas histórias. E provavelmente elas continuarão intocadas, importantes apenas para aqueles que as vivem.

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