Internet: a escola da palmatória

A internet como ela é hoje facilitou muito a vida das pessoas ao redor do mundo. Temos uma fonte (quase) inesgotável de informações à disposição nas nossas casas, ou até mesmo na palma das nossas mãos. As notícias chegam de todas as partes do mundo em milésimos de segundos. Podemos selecionar aquilo que queremos ver na hora que bem entendermos. Dá pra conversar com pessoas que estão a milhares de quilômetros de distância.
Se Marty McFly de fato chegasse com seu DeLorean em 2015 e a primeira coisa que aparecesse na frente dele fosse o primeiro parágrafo desse post, ele acreditaria que essa foi a melhor invenção do século passado. É triste dizer, porém, que ele não estaria lá muito certo. Ao mesmo tempo que a internet trouxe uma infinidade de maravilhas, ela abriu um espaço considerável pro ódio que estava lá, adormecido no coração das pessoas. Quero abordar, porém, um caso específico de ódio que tenho visto com muita frequência na rede.
Comecemos por uma analogia, porque eu gosto pouco delas. Acredito que boa parte das pessoas que estão lendo esse post passaram um grande período da vida aprendendo que o correto era escrever “idéia” assim, com acento agudo no e. Qual não foi a surpresa de muita gente ao descobrir que agora a ideia delas perdeu o acento? Anos e anos decorando a ortografia daquela palavra e de repente, sem mais nem menos, a sua verdade cai por terra.
Imaginemos então dois alunos, um com muito potencial para o aprendizado da língua portuguesa e outro que tem lá seus desconfortos. Para qualquer um deles, a mudança de um hábito tão presente em suas vidas pode levar um tempo pra se concretizar, mesmo que agora eles saibam que é errado ter uma idéia.
Um bom professor de português terá calma e apontará, de modo a colaborar com a construção do conhecimento, que aquela não é mais a ortografia adotada pela norma culta. O mestre ruim, porém, vai castigar os alunos pelo erro e, indo mais além, ele pode até mesmo zerar uma redação muito bem escrita por causa de um é. Se um bom aluno já responderia mal a uma atitude dessas, imagine o que não tem tanta predisposição ao aprendizado da língua?
Pois bem, se o instrumento conhecido como palmatória foi abandonado pelas escolas brasileiras já há algum tempo, justamente pela sua crueldade e falta de eficácia, a internet parece querer adotá-lo em larga escala. Ninguém parece ter a paciência pra explicar ao próximo um pouco mais sobre aquilo que acredita: é mais fácil chegar com os dois pés no peito, sair xingando o colega e tratando os outros feito lixo. “Nossa, como você é idiota”, “seu cu não tem inveja da quantidade de merda que sai da sua boca?”, “ai, para de passar vergonha, que ódio que eu tenho de gente assim” são coisas que eu leio com razoável frequência nas redes, e que poucas vezes aparecem na vida além da virtual. Não é assim que a banda toca, gente.
Quando uma pessoa passou uma vida inteira ouvindo pensamentos machistas, por exemplo, como se aquilo fosse a única realidade do mundo, pode levar um tempo até que ela perceba o quanto aquilo está errado. Infelizmente ninguém nasce sabendo o que é certo e o que é errado, e a sociedade faz questão de divulgar preconceitos e conservadorismo como a grande verdade universal. Isso não quer dizer, porém, que a pessoa não possa estar disposta a aprender e desconstruir.
“Mas Luiza, você tá me pedindo pra ter paciência com gente que fala abobrinhas que vão contra princípios básicos dos direitos humanos?” Não, caro leitor. Eu só acho que (quase) todo mundo merece o benefício da dúvida. Você não tem como saber se aquela pessoa não escreve “idéia” porque ela sequer sabia que a palavra tinha perdido o acento; ou talvez ela já tenha aprendido, esteja disposta a adotar a nova ortografia, mas aquele acento escapou sem querer – afinal de contas, todos já cometemos erros (e que atire a primeira pedra quem nunca fez a mesma burrada mais de uma vez, mesmo sabendo que não era correto).
Meu ponto é: eu sei que às vezes a outra pessoa simplesmente não está disposta a te ouvir, prefere continuar divulgando bobagens e ainda vai ser agressiva com você. Sei também que nem sempre a gente está com essa paciência de Jó pra desconstruir o pensamento alheio e problematizar a fala do coleguinha. E sei que existem pessoas que vão errar mil vezes e não vão aprender nunca, fazendo você ficar com a sensação de que gastou saliva. Mas entrar de sola assim, de primeira, sem dar a chance daquela pessoa se reavaliar e, quem sabe, concordar com você e se “desculpar” pelo que disse, isso não vai levar a NADA. Pode inclusive afastar alguém que estaria super disposto a te ouvir e mudar de opinião, mas se incomodou com o tratamento recebido e entrou na defensiva.
Acho que ando muito paz e amor HAHAHA

Em tempo: já que falei em machismo e, indiretamente, feminismo pra exemplificar meu ponto nesse texto, aqui vão dois textos (com os quais eu me identifiquei muito) que provam que as pessoas podem aprender e mudar, sim: o do Lugar de Mulher e o da Livoneta.

10 comentários sobre “Internet: a escola da palmatória

  1. Vai começar o ~abraçamento~ via comentários, mas *abraça* também me sinto numa fase paz e amor, sabe? Foi-se o tempo em que eu perdia a cabeça com qualquer bobagem. E foi-se o tempo em que eu sentia a necessidade de comentar que eu odiava alguma coisa, que era uma besteira, isso e aquilo. Nunca fui de falar diretamente para as pessoas porque não tinha um alvo específico a ser ofendido, mas… ainda assim ofende, né? Exemplo fictício: falar no twitter que eu DETESTO programa Pânico, que aquilo é um lixo televisivo e que as pessoas deviam se preocupar em estudar em vez de ver aquilo. Eu realmente não gosto do programa, mas vai resolver alguma coisa ser agressiva? Se eu acho o programa ofensivo eu preciso mesmo ofender a quem assiste para expor meu ponto de vista?
    Não sei o que tem na internet que libera o Mr. Hyde de cada um. Fui até procurar essa tirinha (http://www.comoeurealmente.com/2013/03/tendencia-ao-odio.html) para te mostrar, porque é assim que eu vejo a internet. Eu tenho pavor de comentário de site de notícias, porque sempre tem um falando groselha e outros atacando de volta chamando de “acéfalo” para baixo, aí vem outros tomando as dores e xingam de volta. Não tenho disposição para ler esse tipo de coisa sem ficar revoltada e com dor de estômago, viu?
    Quanto à analogia, sou suspeita para falar porque adoro uma, mas acho que você ilustrou bem porque a gente não pode “apedrejar primeiro e perguntar depois”, porque não conhecemos o cenário todo.
    Vou ficando por aqui porque comecei ler seu post lá pelas 9:00, parei para fazer para fazer mil coisas enquanto comentava que só acabei agora, quase 17:50.

    • Eu tenho evitado inclusive odiar as coisas, sabe?! Claro que às vezes é impossível ser tão paz e amor. Quer dizer, como não odiar um Bolsonaro, por exemplo? Mas eu concordo plenamente com isso de evitar a divulgação dele, porque às vezes eu posso atingir alguém que tinha NADA a ver com meu ataque de rage. Já fui uma pessoa muito mais rancorosa com a vida e fico feliz que esteja me desfazendo um pouco disso.
      Achei essa tirinha sensacional! Sei lá por que diabos as pessoas sentem essa necessidade de expressar opiniões raivosas, como se isso fosse fazer com que elas se destaquem no mundo.
      Seria bom se isso só acontecesse nos portais de notícia (cujos comentários eu evito pra não passar mal), mas cada vez que eu abro os comentários de alguma coisa no facebook sou metralhada por essas guerrinhas que não levam ninguém a lugar algum. Foi um pouco o que me motivou a escrever esse texto, mesmo que eu abra pouco a rede vizinha.
      Analogias são amor, todo mundo devia fazer mais uso delas na hora de argumentar. Teríamos um mundo melhor.
      E sobre comentários-textão, amo fazer e amo receber! Melhor coisa é ter muito o que falar sobre o texto da pessoa ou saber que ela se empolgou pra falar bastante do seu❤

  2. Falta amor na internet, essa que é a real. Já cansei de entrar em páginas do FB, por exemplo, e encontrar um monte de gente brigando por esse ou aquele motivo. O que custa ser um pouco mais gentil no trato com as pessoas? O anonimato das redes socais e da internet desperta verdadeiros monstros de arrogância e maldade, isso é que é a verdade. Por essas e outras que eu praticamente não comento em lugar nenhum, só nos blogs de que gosto muito. Vai saber o que a pessoa do outro lado vai pensar e escrever? E simplesmente não estou disposta a entrar num bate boca que não vai levar a lugar algum. Um beijo!

    • Eu fico muito triste com isso. Um lugar que tinha tudo pra espalhar o amor e a compreensão ser assim tão cheio de ódio e rancor. Por algum motivo, as pessoas parecem acreditar piamente que manifestar todos esses sentimentos ruins vai torná-las mais “descoladas” na internet. Eu também evito comentar em lugares que não sejam blogs que eu gosto, porque mesmo que eu esteja disposta a ser educada e explicar com paciência, vai saber como a pessoa vai me responder? Isso é tão desanimador =(

      • Exatamente! Acho que a ideia de que não haverá punição deixa essas pessoas mais à vontade para serem maldosas, essa que é a verdade – o que é uma pena, visto que o potencial da internet para coisas boas é enorme! E pra ficar em só um tópico: coletivos femininos. Sério, aprendi TANTA coisa por meio deles, é tão incrível esse alcance que a internet nos dar, de poder aprender de tudo um tanto. ♥

  3. Gosto muito da forma como você constrói seus textos, Luh. Eu continuo escrevendo “idéia” porque acho mais bonito =B
    É tipo o que estávamos conversando sobre “o travesti”, que o correto é “a travesti”. Eu não sabia disso até você alertar.
    A questão é que na internet todo mundo ganha força porque por mais que tenha uma foto de perfil, está escondido atrás da tela de um computador.
    (eu ri qdo vi “desconstruir” e “problematizar” no mesmo parágrafo =P heh)
    Beijo, Luh! E obrigada por indicar meu post❤

    • Obrigada, Lí! Adoro elogios assim❤
      Essa coisa de "a travesti" foi outra coisa que me levou a escrever o texto. Já vi gente tratando super mal uma pessoa que tinha dito "o travesti", sem sequer perguntar se a pessoa sabia o correto. Daí fiquei pensando numa vez que o Cumberbatch usou a expressão "pessoas de cor" enquanto fazia um discurso super pró-causa negra e as pessoas meteram o pau nele. Ele pediu desculpas pelo termo, disse que saiu sem querer, que tava se sentindo muito mal, mas é como se você zerasse a redação pelo acento dele, sabe? Apontar o erro? Ótimo! Cair matando? Péssimo.
      Hahahahaha é a ECA que tem dentro de mim falando mais alto =P

  4. Pode andar paz e amor que a gente gosta! Ou pelo menos eu gosto, hmmm.

    Não tenho como concordar mais. Em geral eu procuro me manter afastada de discussões de internet, mas quando acabo me envolvendo em uma, tento sempre construir argumentos para que a pessoa compreenda meu ponto de vista. Não faço questão de que ela concorde com ele, mas que pelo menos aceite que tem gente que pensa diferente. Agora, quando o assunto é machismo/feminismo ou a defesa de alguma outra minoria (LGBT, negros, índios, pobres etc.), a coisa fica bem mais delicada. É muito difícil ler o comentário de uma pessoa que simplesmente acha que “bandido bom é bandido morto”, dói de verdade, e muitas vezes nem adianta usar todos os argumentos do mundo, porque a pessoa não quer entender. Ainda assim, prefiro simplesmente me afastar da pessoa do que continuar a conversa. Basta de ódio. Não precisamos mais disso.

    Beijinhos ;*

    • É de mais gente assim que o mundo precisa: gente que evita discussões mas que, quando entra em uma, procura ser sensato e argumentar sem atacar. E com relação às discussões sobre opressão de minorias, concordo que são beeeeem mais delicadas (e que é bem mais fácil ler merda nesses casos), mas já vi gente perder a cabeça por coisas relativamente pequenas que poderiam ser “ensinadas”, sabe? Isso me deixa tão triste…
      E como você mesma disse, chega de ódio! Responder gente agressiva com mais agressão só vai aumentar a quantidade de ódio desnecessário no mundo, né?! Antes ignorar, como você bem pontuou.

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