“We teach girls…”

Estudei minha vida inteira numa escola católica e pequena de um bairro tradicional de São Paulo. Acho que não é segredo pra ninguém que um lugar como esse transborda machismo e definições estanques de gênero, e as transformações acontecem num ritmo extremamente lento. Isso não quer dizer que não encontrei coisas boas por lá: levo algumas amizades que fiz no colégio até hoje. Foram, porém, muitas as manifestações sexistas com as quais convivi na época, coisa que só fui perceber alguns anos depois.
Vi todo tipo de slut-shaming acontecer ali, bem na minha frente, pelos mais variados motivos. Vi meninas serem criticadas pelo tamanho da roupa que usavam em festas e pela forma como dançavam. Vi grupos de pessoas (de ambos os gêneros) comentando a vida sexual de colegas de turma. Vi mulheres chamando umas às outras de “puta”, “vadia” e similares pela quantidade de garotos com quem elas ficavam. Vi um ensino médio inteiro recriminar uma garota porque ela estava grávida.
Vi mulheres fingindo que eram burras apenas para que os garotos viessem ao socorro delas e, como não se sentiam intimidados por elas, passassem a se sentir atraídos. Vi várias brigarem por causa de homem. E vi muitos desses garotos com discurso de que “nenhuma mulher presta, são todas vagabundas”, discurso esse que não desaparecia nem com aquele argumento (que deveria ser SEMPRE último recurso) de “mas e a sua *insira-parente-feminina-aqui*?”. Eles também não perdiam a oportunidade de definir fulana como “o bundão da turma” ou de dizer que beltrana “não era como as outras”.
Vi uma escola que tirou a bermuda do uniforme feminino porque algumas garotas estavam “exagerando” e deixando as pernas muito de fora. Vi professores que insistiam, aula após aula, em piadas machistas ou de teor altamente sexual e que eram considerados “fodões” por causa disso. Vi outros que, bem discretamente, tentavam dar em cima de meninas de uma turma do ensino fundamental II, com menos de 15 anos.
Hoje olho para trás e me envergonho de ter sido conivente com muito disso e até de ter praticado algumas dessas atitudes. Ainda que em casa eu tenha recebido uma educação empoderadora, a vertente escolar é um forte elemento de pressão na formação da personalidade. Por sorte, a universidade me proporcionou um ambiente bem mais aberto, cheio de discussões sobre o assunto e problematizações constantes. De qualquer forma, sei que essa parte da minha educação deixou sequelas que eu luto diariamente pra desconstruir. Contudo, quando eu penso nas minhas colegas que não tiveram a mesma oportunidade que eu e que continuam mergulhadas no machismo da sociedade, que indiretamente nos foi enfiado goela abaixo por anos, tudo que eu sinto é um desejo de mudança.
Precisamos mudar o que ensinamos para as crianças, tanto mulheres quanto homens. Precisamos fazer com que todos desejem a igualdade de gêneros, lutem por ela e tentem praticá-la constantemente, nos menores detalhes.

Talvez você, mulher, que estiver lendo esse texto, ache que eu estou exagerando. Talvez você sinta que ele é uma enorme chuva de indiretas, mas eu mesma me culpo por várias das coisas que menciono acima. Não quero, com isso, subir em palanquinho moral ou apontar o dedo na cara de ninguém. A sociedade nos leva a ser assim, e cabe a nós tentarmos mudá-la.

We teach girls to shrink themselves, to make themselves smaller. We say to girls: ‘You can have ambition, but not too much. You should aim to be successful, but not too successful otherwise you will threaten the man.’ Because I am female I am expected to aspire to marriage. I am expected to make my life choices always keeping in mind that marriage is the most important. A marriage can be a source of joy and love and mutual support, but why do we teach girls to aspire to marriage and we don’t teach boys the same? We raise girls to see each other as competitors, not for jobs or for accomplishments, which I think can be a good thing, but for the attention of men. We teach girls that they can not be sexual beings in the way that boys are. Feminist: A person who believes in the social, political and economic equality of the sexes.”

Chimamanda Ngozi Adichie

19 comentários sobre ““We teach girls…”

  1. oi, oi.

    sou homem e, ó, eu era a pessoa que sofria. por ser gay (não assumido), geral me zoava por causa da minha voz e tals. teve também a época em que eu colocaram um bilhete nas minhas costas dizendo “assumo: sou gay!”. tive que sair pela escola inteira com o bilhete, caso contrário, apanharia.

    hoje olho pro passado e não tem raiva daquelas pessoas. na verdade, sou grato a elas, pois tudo aquilo me deu impulso pra hoje estar terminando uma faculdade onde eu vou lutar pelos direitos daqueles que desconhecem a lei e foram bobos igual a mim.

    não sei como são as pessoas que sofreram naquela época na tua escola, mas, espero que elas estejam bem. passar por esse tipo de situação mexe demais com o nosso psicológico. tu não foi atingida diretamente, e mesmo assim ainda se sente meio mal. imagina quem passou por piadinhas, bullying…?

    bjs!
    Não me venha com desculpas

    • Nossa senhora, seus colegas de classe eram muito cruéis! Acho que não cheguei a ver um bullying tão pesado e direto na minha época de escola. Que bom que você tem um coração grande e consegue ser grato a eles sem raiva, porque olha… (ou talvez eu seja meio rancorosa hahaha =P). Mas, de fato, foi bom nesse aspecto de você ter decidido lutar pelos direitos dos oprimidos❤
      Eu cheguei a sofrer bullying, mas foi muito por eu ser "a nerd da sala", sabe? Essa parte de ser slut-shammed e de briga por macho eu nunca vivi (embora os meninos me enxergassem de forma diferente porque eu era "a inteligente"). Às vezes me pergunto se algumas dessas meninas tinham a consciência do peso que era colocado em cima delas. Hoje mesmo ainda me deparo com garotas que julgam as outras e chamam as colegas de "vadia" apesar de se comportarem da mesma forma. É triste, mas a Chimamanda tem razão quando diz que as mulheres são ensinadas a competir umas com as outras por homens, mas sem se perceberem como "seres sexuais". E é isso que eu queria muito, mas muito mesmo que mudasse! =(

  2. Meu, me peguei pensando exatamente nisso uns dias atrás. Realmente nossa escola era absurdamente machista! O foda é que olhar pra trás assim causa uma leve vergonha do meu eu antigo, pq eu lembro de coisas que disse e certas atitudes que hoje considero absurdas. Mas é viver e aprender! (e desconstruir =D )

    • Acho que o fato de a gente ter essa consciência de que precisamos desconstruir sempre é ótimo! Isso significa que se aprendemos alguma coisa com esse lado machista do colégio foi sobre como aquilo era errado. Ao menos essa vergonha que a gente sente serve pra comparar as duas fases das nossas vidas e celebrar a melhora! =D

  3. Lu❤

    Eu entendo bem tudo isso. A minha escola também era machistinha (machistona), nível: gravaram 2 colegas transando pela janela de um banheiro fora da escola, enviaram pra todo mundo de todas as escolas particulares de classe média alta da cidade e a menina precisou se mudar porque viveu o inferno. Eu sempre fui briguenta e justiceira, o que salva a minha consciência de muitas das merdas que vi acontecendo e para as quais cheguei balançando o dedinho na cara. Mas também já cometi alguns meios erros, do tipo falar "o que tem ela ser vadia? não tá solteira? tá namorando você? então você não é corno e não tem nada a ver com isso", sabe? Eu defendia, mas nem sempre do jeito certo. Outra coisa que hoje me dá um teco de vergonha é de como eu me sentia orgulhosinha de "não ser como as outras". Esse elogio que até hoje me fazem sempre, principalmente para dizer que sou "diferente dos outros nordestinos", e eu tenho vontade de chegar na voadora e depois vomitar no rostinho da pessoa. Só que, no colégio, eu achava massa ser "diferente", não um "diferente" e pronto (como gosto de ser até hoje), mas um diferente em comparação a alguém, inevitalmente do lado ofensivo do elogio. Sobre gravidez, acho que não superei até hoje, porque morro de pena de meninas adolescentes grávidas e não consigo não pensar que, sim, elas estragaram as próprias vidas, mesmo que por alguns anos. Só que: eu também não tenho nada a ver com isso. Essa mulher, Chimamada, é maravilhosa, fico de cara com o quanto ela entende a sociedade em que vivemos. E fico triste porque, desde que me entendo como moça, lá nos meus 12, 13 anos, até hoje, ouço que sou "meio" intimidadora. Até bossy. As coisas não mudaram muito nesse sentido, a não ser pelo fato de que, cada vez mais, essa peneira tem me trazido pessoas maravilhosas.

    blogdeclara.com

    • Nossa senhora! Eu lembro de um episódio parecido com fotos nuas de uma menina – acho, porque na época eu lembro de não querer saber os detalhes -, mas que começou numa escola do outro lado da cidade.
      “Outra coisa que hoje me dá um teco de vergonha é de como eu me sentia orgulhosinha de ‘não ser como as outras’.” – nossa, s-i-m! Eu ouvia muito que eu era “uma lady”, embora isso me deixasse meio triste na época porque muitas vezes era só uma forma de dizer que eles não me achavam bonita, e como minha autoestima já era um lixo… De qualquer forma, sabia que os meninos me achavam “diferente” das outras e eu ficava feliz por isso, mas hoje me arrependo muito de ver como elogio.
      Eu entendo essa coisa da gravidez porque também penso que a vida dela não vai ser das mais fáceis nos anos seguintes (até porque em muitos desses casos de gravidez precoce o pai é bem ausente), mas lembro que todo mundo olhava pra ela com um ar meio de desprezo. Ela era quase uma atração, sabe? Tipo “cadê a menina grávida?” – e às vezes me pergunto se não tinha uma ponta da discriminação por ela ter uma vida sexual aos 15.
      Depois que assisti a essa palestra dela, não vejo a hora de comprar algum dos livros pra ler. Amei fortemente.

  4. Recentemente presenciei esse lance machista pós aula na faculdade e me pergunto: em um ambiente desses, sério, logo você professor? Nunca fui de falar dessas coisas, costumo só observar e ajudar amigas/conhecidas que precisam de alguma defesa ou socorro. Mas isso é tão cotidiano que acaba sendo normal. Me pego no dia a dia escutando mulheres no transporte público falando sobre a roupa de alguma moça, às vezes até eu penso e isso é uma droga, pq essa cultura tá tão colada em nossas cabeças desde crianças…. que argh. A sociedade já me cansou.

    Essa citação da Chimamada é ótima. sos

    bjs,
    Carol | Espilotríssimo
    http://www.carolespilotro.com/

    • É foda quando a gente se depara com esse tipo de comportamento vindo de uma autoridade na faculdade ou na escola, e que seria responsável pela nossa educação, né?! A decepção é ainda maior.
      Acho que sua atitude de ajudar as meninas que passam por situações assim é MUITO importante. Quanto mais a gente espalhar a sororidade, mais fortes ficam as mulheres e mais próximas estaremos da igualdade se lutarmos todas juntas❤
      Todas nós ainda passamos por isso, por mais desconstruídas que sejamos. A gente passou tanto tempo aprendendo que era natural julgar uma mulher pela roupa que agora precisamos nos lembrar diariamente do contrário. Mas cada vez que a gente se recrimina por isso é um sinal de que aprendemos com nossos próprios erros, e isso é bem gratificante!
      Eu amei tudo que ela falou na palestra, do primeiro ao último minuto! Já adoro essa mullher hahaha

  5. Ah, Luh, não acho que você deva sentir vergonha, sabe? Pior seria se você tivesse acesso a toda essa nova informação e continuasse com o mesmo pensamento machista que te colocaram na cabeça enquanto estava na escola. Mas você (e eu, pois também tive minha cota de pensamento direcionado pelo meio) soube aproveitar o que estava ao seu alcance e resolveu mudar de atitude. É um treino contínuo reprogramar nossos cérebros depois de anos pensando que todo esse comportamento julgador é normal, mas a gente segue em frente. Aprendemos que a mulher pode ser o que quiser, vestir o que quiser, fazer o que quiser e que nada disso a colocará acima ou abaixo de outra pessoa. Estamos em um tempo de descobertas, questionamento e empoderamento, e isso é incrível. Tudo bem que nossas lutas continuam sendo diárias, mas me enche de satisfação ver que meninas tão novas já sabem o que é feminismo e lutam por um mundo igualitário enquanto eu, na idade delas, me sentia incomodada com as atitudes dos meus professores (principalmente os de cursinho) e não sabia bem o motivo. Ah, e esse vídeo da Chimamanda me arrepia até a alma! <33

    • Acho que vai na linha do que eu respondi aqui em cima: pelo menos essa vergonha que eu sinto da Luiza-passada me ajuda a celebrar as mudanças e vitórias de ter mudado minha forma de pensar. Cada vez que a gente percebe que pensamos algo que estaria errado, é um sinal de que estamos desconstruindo e evoluindo, e isso não tem preço. Quando eu olho pra geração que está cursando o ensino fundamental II e o médio hoje, com toda essa informação e todo esse incentivo ao empoderamento feminino, sinto um orgulho pelo futuro. Recentemente saiu aquela notícia das meninas do colégio de Porto Alegre que fizeram uma manifestação pelo uso do shortinho na escola. Lembro-me de como fomos tolhidas nesse aspecto no meu colégio (mas ficamos caladas) e sinto uma felicidade gigante por elas. É maravilhoso que as meninas possam tomar consciência disso tudo cada vez mais jovens. E quando vi essa palestra dela pela primeira vez eu quase aplaudi de pé daqui de casa HAHAHA

      • Verdade! Essas meninas que se organizaram para a manifestar no Rio Grande do Sul me enchem de orgulho e esperança de um futuro melhor! É tão lindo de ver!❤
        E, aproveitando, obrigada por tanto comentário lindo no blog! <33

  6. MARAVILHOSO!!!! Não tenha vergonha, pois você passou por aquilo e sabe onde errou, você aprendeu, se desconstruiu e isso sim é motivo de ORGULHO! Imagine a quantidade de pessoas que não chegaram até aí. Você tá de parabéns por ter entendido e passado por isso, =D

    • Não só imagino essas pessoas como tenho contato com várias delas hahahaha
      Mas sim, essa vergonha que sinto do meu eu-passado só serve pra que eu possa ficar feliz ao comparar e ver o quanto eu consegui evoluir e melhorar como pessoa. =D

  7. Eu lembro de quando eu estava na PRIMEIRA SÉRIE e um inspetor de alunos me disse que meu short estava curto e para ir com um mais comprido no dia seguinte. Eu não entendi direito porque e minha mãe me disse que era “para não distrair os meninos”. Hoje eu penso e talvez naquela época os meninos estivessem nem aí para as pernas das colegas. De qualquer maneira, se você erotiza a imagem de uma menina de 8 anos, o problema é você e não a menina que usa um short curto. Eu acabei lembrando disso e problematizando há pouco tempo, e quando paro pra pensar
    Mas eu também já estive do outro lado e já saí apontando o dedo, já saí falando que “fulana não se dá o respeito”. Uma vez entrou uma menina nova na escola e começou a fazer amizade com a Beltrana. Uma turminha (eu inclusa) começou a falar que, se ela continuasse andando com Beltrana, ela ia “desencaminhar” (não lembro a expressão exata, mas foi algo nesse sentido). A vida te mesmo um humor muito irônico, porque 2 anos depois Beltrana era uma das minhas melhores amigas.
    Enfim, os erros do passado tem que servir de exemplo para a gente não errar no futuro, não é? Se não tiver como mudar o que aconteceu e/ou pedir desculpas, o que importa é prestar atenção para não reproduzir comportamento machista.
    E como prometido: ai nossa, texto feministra, credo… manda mais.❤

    • Geeeeente do céu, primeira série? A coisa era grave! Até onde eu sei, as meninas do meu colégio podiam usar shorts-saia até a quarta série. OS shorts foram banidos por causa das meninas do ensino médio, o que já era um absurdo, mas alguém dizer isso pra uma menina da primeira série é quase pedofilia! É exatamente como você disse, o problema está em quem erotiza o corpo de uma menina de 8 anos. Isso é doença, gente!
      Também já falei que muita menina “não se dava o respeito”, ou que era isso ou aquilo porque ficava com vários. Quer dizer, a menina deveria poder beijar e transar com quem (e com quantos) ela quisesse sem que uma pá de gente ficasse falando mal dela por isso. Afinal, os meninos saíam por aí “pegando geral” e não era um escândalo, porque deveria ser com a gente? Aliás, gostei dessa ironia da sua vida, porque ela mostra quanto nós mulheres fomos ensinadas a julgar umas às outras assim, de graça.
      Exatamente isso! Fico feliz quando olho pra trás e vejo como mudei e quanto aprendi com isso tudo. Nesse aspecto, um viva ao nossos próprios erros!
      E pode deixar, qualquer diz desses eu mando mais❤

  8. Incrível como o tempo vai ajudando a gente. Admito que ainda erro e tenho que me corrigir mentalmente e dizer pra mim mesma que não, a roupa da fulana não muda quem ela é e não faz dela uma pessoa ruim de forma alguma. Tento cada dia mais abrir a mente e debater esse tipo de coisa, sabe? Cada um é livre pra ser quem quiser, e a gente tem mais é que respeitar mesmo. E como eu também quero esse direito, nada mais justo do que eu respeitar as pessoas da mesma forma, né? Tô aprendendo. haha Beijo, Luh!

    • Não é só você, Taty! A gente precisa se educar diariamente quanto a isso. Também já me peguei pensando algumas coisas do tipo. Acho que a chave está justamente no fato de você perceber que cometeu um erro e estar disposta a tentar acertar a partir daí❤ Cada vez mais eu tento entender o que me leva a pensar certas coisas ou julgar algumas pessoas de forma x ou y. E isso tem sido ótimo pra mim! =)

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