Uma saudade…

Oi, Mã (era assim que eu te chamava, lembra?)

Outro dia me peguei pensando na linda Tears in Heaven, do Eric Clapton. Você se foi quando eu tinha acabado de completar oito anos, hoje já sou uma “jovem adulta”, será que você me reconheceria?  Será que você perceberia que sou sua filha, mesmo que eu tenha me tornado quase uma versão feminina do meu pai?
A verdade é que isso não me preocupa tanto quanto o medo que eu teria de não te reconhecer. As lembranças que tenho de você são escassas e diminuem com o tempo. Não fui capaz de guardar na memória nenhum aniversário seu que passamos juntas; sua voz já se tornou um som abafado e incerto ao qual eu tento me apegar; não tenho certeza se realmente me lembro do seu rosto, já que tenho fotos nas quais me amparo sempre que preciso.
Muitas das coisas que sei sobre você são uma construção do que os outros me contam. Sempre que ouço as pessoas falando sobre algum traço da sua personalidade, fico imaginando como teria sido conviver com ele durante toda a minha adolescência. É curioso prestar atenção nessas conversas e depois tentar imaginar como você teria agido em tal ou qual situação.
Queria aproveitar essa carta pra te dizer que vai tudo bem por aqui. O homem com quem você se casou e que escolheu pra ser o pai da sua filha (que você demorou a querer ter) é o melhor pai do mundo. Ele tem cuidado muito bem de mim, como sempre fez. O amor que ele tem por mim não encontra limites. Foi graças a ele, também, que três mulheres maravilhosas passaram a ter um papel cada vez maior na minha vida e ajudaram a fazer de mim a mulher que sou hoje. Embora minha avó não tenha mais condições de cuidar de alguém, minhas tias fazem um trabalho incrível.
São tantas as coisas que eu fiz e que você não pôde ver. Fiz sete anos de piano, sabia? Ultimamente ando meio relapsa por causa do meu perfeccionismo, mas você nunca me viu tocar nem um dó-ré-mi-fá. Ah, também passei na universidade dos meus sonhos, aquela em que você e meu pai se conheceram. Toda vez que caminho pelo prédio da História, sou tomada por uma pequena dose de alegria ao pensar em vocês dois.

Eu gostaria de acreditar em céu, em vida pós-morte, em reencarnação. Gostaria de crer que, de alguma forma, você pode ler o que está escrito aqui. Essa não sou eu, infelizmente. Mas eu percebi que falo muito pouco sobre isso tudo e sobre você. Talvez tenha sido algo que ficou guardado no meu subconsciente desde a infância, uma espécie de medo de que os outros sintam pena de mim. E eu não posso guardar isso comigo pra sempre, não é mesmo?!

Com todo o amor que eu não tive tempo de te dizer que sentia,
Luiza

Esse texto saiu depois da leitura dessa lista no Buzzfeed. Acho que nunca tinha lido algo tão verdadeiro por lá, e o post deles me fez ver que muitas das coisas que se passavam na minha cabeça não eram exclusivas. Recomendo a leitura pra quem quer entender melhor o que se passa na mente de alguém que perdeu um dos pais durante a infância.

19 comentários sobre “Uma saudade…

  1. Eu fiquei tanto tempo encarando a tela depois de ler seu texto e, no fundo, ainda não sei que palavras escolher pra dizer o quanto admiro você. Sabe aqueles momentos em que você sente um milhão de coisas explodindo por dentro e não sabe como expressar adequadamente? Assim que me encontro agora. Eu não preciso repetir um milhão de vezes o quanto acho você incrível (embora por vezes eu faça isso), mas quero reforçar isso agora. Ver sua coragem ao falar disso me deixa com um sorriso e com força pra mostrar mais sobre mim também.

    Tenho convicção de que sua mãe teria um amor imenso e uma admiração crescente a cada passo que você desse. Espero que os sentimentos bons possam preencher você e te fazer crescer ainda mais!

    • Mai ❤❤❤
      Estou aqui, ensaiando uma resposta e, sinceramente, ainda não sei muito bem o que dizer.
      Fico muito feliz com todo esse carinho comigo e com o texto. Esse recado final me deixou cheia de alegria 😍
      Também fico contente que esse post tenha te dado força pra mostrar mais de si. É um pouco assustador, mas é, de certa forma, também um pouco revigorante🙂

  2. Luh, que carta mais linda. Tenho que admitir que chorei, viu? A pessoa mais próxima que perdi foi meu primo, quando eu tinha nove anos. Por um lado consigo entender como as memórias se perdem e se confundem com o tempo, mas nunca vou conseguir entender realmente como você se sente, já que você perdeu a sua mãe. Tenho certeza que ela está orgulhosa da filha maravilhosa que tem. Beijo, sua linda! ❤️

    • Taty ❤❤❤
      É aquela coisa: por mais que você não entenda exatamente como eu me sinto (e eu não acho que a sua perda teria provocado uma dor menor, apenas diferente), você demonstra muita empatia, e é isso o que mais importa! Obrigada pelo carinho, mesmo! 😚

  3. Nada do que eu diga vai ser digno do seu texto, Luh, mas eu me emocionei muito. Fui ler o texto do Buzzfeed e fiquei encantada com a profundidade da questão que é ter que preencher as lacunas por si só.
    Não sei se eu já comentei com você mas meu avô faleceu quando meu pai tinha 9 anos e hoje, adulta, consigo entender no quanto isso influenciou na personalidade dele e até na ~habilidade~ dele como pai. Não sei até onde isso faz ou não sentido, mas parece que ele não aprendeu o que é ser pai de um filho crescido porque não teve um com quem aprender e de quem seguir o exemplo. Pode ser besteira, mas eu honestamente enxergo isso nele.
    Quando meu outro avô faleceu, minha mãe perguntou pro meu pai da dor que ele tinha sentido, mas ele disse que já não conseguia mais lembrar como uma experiência vivida, mas como se fosse uma história que ele tenha lido…
    Engraçado como nunca acho que minhas palavras estarão à altura dos seus posts, Luh. Ainda mais quando eles são sobre algo que eu não vivi. Mas fico muito orgulhosa de ser sua amiga e de você ter colocado “no papel” esse assunto extremamente delicado.
    Um beijo! (e fique bem)

    • Lí ❤❤❤
      Não tem essa de seus comentários não estarem “à altura” dos meus textos, não, viu?! Sempre leio suas palavras por aqui com um sorriso no rosto.
      Acho que você nunca tinha comentado isso comigo, mas faz sentido o seu raciocínio. Ele teria ficado com a imagem do pai dele de quando era criança, e isso pode influenciar no tipo de pai que ele tenta ser, sabe?
      Quando você perde um dos pais na infância, a dor que você sente na época é bem perto disso que ele mencionou. Como bem disse a moça do Buzzfeed, você vai vivendo o luto muito mais ao longo dos anos do que na hora.
      Obrigada por todo esse carinho, mesmo! 😚

  4. Ai Luh, e como faz para parar de chorar depois de ler uma coisa dessas? Não consigo sequer imaginar como deve ser crescer sem a mãe por perto. Claro que você teve pessoas maravilhosas acompanhando teu crescimento, teu pai, avó e tias, mas sempre vai ficar aquela ausência, aquele “como teria sido”. Preencher as lacunas, tentar imaginar… tudo isso deve ser tão difícil! Olha, teu texto me deixou muito emocionada só por pensar na possibilidade, sabe? E tenho certeza que tua mãe se orgulharia imensamente da mulher incrível em que se transformou, de verdade.❤
    Fica bem, sua linda!
    Beijo!❤

    • Thay ❤❤❤
      Obrigada por todas essas palavras de carinho! Não sei nem muito bem como responder a tudo isso, juro! 😍
      Olha, é difícil, sim, mas depois de um tempo vira meio que “habitual”. Sei que é meio estranho dizer isso, porque ninguém fica plenamente acostumado com a dor de uma perda, mas deixa de ser algo tão triste, sabe? Vai doer se cutucar muito, mas caso contrário dá pra ir levando sem sofrer o tempo todo.
      De novo: obrigada! 😚

  5. oi luh!🙂
    eu disse que queria ler o post e cá estou… não sabia da sua mãe, mas fiquei muito sentida com o post/carta e tuas palavras. ando tão sensível, que apesar do contexto enxuto, enchi meus olhos de lágrimas por aqui… fico contente em saber que teu pai conseguiu dar conta do recado e criado, mesmo com os imprevistos da vida, a mulher na qual você se tornou hoje… ele deve ter muito orgulho disso, assim como tua mãe também, onde quer que ela esteja. por muitos anos, pensar que eu poderia perder um dos meus pais era motivo de pânico para mim… hoje, mais madura, já vejo que é o caminho natural da vida e que não temos como mudar isso… apenas aceitar. sei que deve ser difícil (e a saudade deve ser enorme), mas tenho certeza de que isso só te deixou ainda mais forte e mais capaz. um grande beijo pra você… e te cuida!🙂

    • Fer ❤❤❤
      De certa forma, fiquei feliz que meu texto tenha tocado tanto as pessoas. Isso significa que consegui dizer direitinho o que se passava aqui dentro.
      Quanto a esse pânico, acho que é uma das coisas que a moça do Buzzfeed não citou mas que aconteceu comigo: ele aumentou MUITO depois que eu perdi minha mãe. Sempre fico preocupada com a saúde dos meus familiares mais queridos. Mas você tem razão, infelizmente é algo que não podemos controlar e esse será o curso natural das coisas.
      Obrigada por todas as palavras de carinho e pelo apoio 😚

  6. Oi, Luh!
    Não sei começar esse comentário sem dizer o quanto eu fiquei emocionada lendo seu texto, e o quanto de empatia eu tenho por ti. Graças a Deus, eu ainda tenho meus dois pais comigo, mas meu pai me teve quando estava começando a ficar velhinho (ele tinha 64 anos), e eu cresci com consciência e o medo de que eu poderia perdê-lo logo, sabe? É horrível crescer esperando por um susto que não chega, mas ao mesmo tempo isso me faz valorizar a vida dele a cada dia.

    Fico muito feliz por você ter tido pessoas boas para olharem por ti. Eu torço, de coração, para que seu pai e suas tias tenham uma vida de muita saúde para te acompanharem por todas as fases da sua vida. Enquanto isso, não sei se você já assistiu Sakura Card Captors – se não leu, talvez não entenda essa referência muito bem – mas nas cenas em que a Sakura olha o retrato da falecida mãe, aparece o espírito dela olhando pela Sakura, e foi assim que eu imaginei a sua mãe te olhando enquanto você escrevia essa carta.

    Eu não te conheço muito bem, mas pelo pouco que eu te li, não tenho dúvidas de que você está num bom caminho, sabe? Sua mãe deve estar muito orgulhosa de você. E jamais pense que é desconfortável para outros ler seus desabafos. Sempre que precisar, abrir seu coração te deixará mais leve.

    Fique bem! Beijinhos.❤

    • Yuu ❤❤❤
      Fico feliz que tenha se emocionado com o texto. O que você disse sobre valorizar a vida de alguém a cada dia é uma enorme verdade: você consegue enxergar como aquela pessoa é importante e como ela pode ir embora a qualquer instante. Muito obrigada pela torcida, Yuu! Também torço pra que as pessoas que você ama te acompanhem ainda por muito tempo.
      Não cheguei a acompanhar Sakura o suficiente (devo ter visto uns 3 episódios), mas a referência fez sentido mesmo assim e te agradeço muito, não só por ela como pelo comentário todo. Foi muito bom lê-lo 😚

  7. Acho que acaba sendo inevitável pensar como seria se ela estivesse presente, não? Quer dizer, se a gente tem tantos “e se” na vida, como não imaginar como seria se algo com todo esse impacto não tivesse acontecido com você?
    Não se preocupe tanto com os detalhes de memórias se desvanecendo, contanto que você se lembre dos sentimentos. Afinal, não importa se a blusa que sua mãe usou era listrada quando te levou para brincar no parque em uma tarde de outono, mas sim o quanto vocês se divertiram juntas nesse dia. E não pense que você está se esquecendo da sua mãe, acredito que a dor se transforma em saudade (o amor também, ele não acaba, só vai sentar num cantinho).
    Achei uma graça o trecho em que você fala que pensa nos seus pais quando passa pelo prédio da História da USP. Tá vendo, não se atente tanto a manter todos os fragmentos das lembranças (afinal, memória não é câmera), você pode usar os que você tem e amarrar às lembranças que você está construindo.
    E não se preocupe com as pessoas sentindo pena de você – no que cabe a mim eu só sinto orgulho ter você como amiga (e a julgar pelos comentários acima, mais gente sente o mesmo).

    • Patthy ❤❤❤
      Sim! É curioso como o ser humano tem essa necessidade de sempre se questionar quanto a uma realidade alternativa à que ele vive, né?!
      Costumo comparar a perda de alguém querido com uma ferida muito feia que, ao longo do tempo, vai cicatrizando e para de doer sempre se for deixada quieta. Acho que é mais ou menos isso que você disse: a tristeza vira saudade e só volta a ser tristeza quando você mexe muito naquilo.
      Na primeira vez que fui lá, fiquei o tempo todo pensando “olha, foi aqui que eles se conheceram” hahaha… gosto muito dessa sensação, mesmo que eu não tenha vivido esse momento com eles.
      Obrigada, obrigada, obrigada! Mesmo! 😚

  8. Desculpe por invadir seu espaço!… Serei bem breve.
    Li e chorei. Rapidamente lembrei de algumas passagens, de seus lindos olhos, de sua voz…
    Aí que saudade que me bateu do seu abraço…
    Posso afirmar que, com a sua partida, todos ficamos órfãos do abraço mais forte e sincero deste mundo!
    Ela teria muito orgulho de você. E você, dela, com certeza!
    Quando se sentir frágil, pense neste abraço!

    • Miriam ❤❤❤
      Não precisa pedir desculpas, isso não é uma invasão. Pode aparecer por aqui sempre que quiser!
      Foram palavras ditas com muito carinho, pelas quais eu agradeço muito! Pode ter certeza que me lembrarei delas sempre 😚

  9. Nossa… o seu texto é tão lindo e perfeito quanto o do Buzzfeed… e todos os comentários são taõ carinhosos… estou eu e minhas lágrimas aqui… a perda dos pais é uma das coisas + tristes desse mundo… a ausência, a saudade… e existem situações em que ela é + doída ainda…. como quando uma criança perde seus pais… Eu tenho 40 anos e tem 5 meses que perdi meu pai… meu papito, meu amigão, meu chão… a vida continua sendo boa pra mim… tenho meu filho, tenho minha mãe, meu irmão, minha sobrinha, meu marido, amigos incríveis… mas a ausência do meu pai é muito, muito dolorosa… mas sei também que foi um privilégio todos esses anos que passamos juntos… tive sorte, muita sorte… nem todos tem essa oportunidade, infelizmente… mas a vida tem que seguir não é mesmo? Com certeza, sua mãe estaria muito orgulhosa da pessoa que você é e que continuará sendo… Que você tenha fé, força e coragem para seguir em frente com sua vida e que seja sempre muito feliz e partilhando sua vida, seus gostos, seus sentimentos…

  10. Luíza querida, lindas suas palavras. Outro dia li um texto falando sobre relações de mãe e filhos. a minha também partiu cedo, e me identifico muito muito, pois como você diz fica uma existência não vivida, também muitas vezes fugia no tempo, não falava no assunto para não sentir a ausência. Tenho certeza que ela teria muito orgulho da mulher que você se tornou, fosse qual fosse o caminho que você tivesse escolhido ela estaria te apoiando.

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