Texto: Nosso Idioma particular

Olha só quem apareceu após uma ausência de vários meseees!
O segundo semestre de 2016 foi uma verdadeira loucura na minha vida. Entre terminar o TCC e fazer outras diversas atividades acadêmicas, acabei abandonando um pouco o mundo blogueiro. Além de ter deixado meu blog na mão, parei de responder comentários, tanto por aqui quanto nos cantinhos mais queridos da internet. Não tive sequer tempo pra ler posts novos! Depois fui assomada por uma daquelas famosas crises de “não gosto de nenhum dos textos que escrevo”, e só agora tenho retomado um pouco as rédeas da minha criatividade (fica bonito quando dito assim, não?!). De qualquer forma, pretendo ir voltando a frequentar a blogosfera aos pouquinhos, tenham paciência comigo…
Fiquem com esse pequeno conto, o primeiro texto fictício que eu escrevi após uma abstinência de mais de um ano

– Você acha que eu sou ridícula, né?!
Lembro-me até hoje do sorriso que minha irmã deu quando terminei de contar para ela o que sentia. Meu coração estava tão acelerado que não teria sido grande surpresa se ele tivesse saltado do meu peito como naquelas cenas de desenho animado. Apesar dos meus catorze anos de idade, aquela era uma das primeiras vezes em que conversávamos de fato, sem o intermédio de nosso pai ou de qualquer plataforma escrita.
Apesar disso, tínhamos uma conexão muito grande. Uma das minhas primeiras memórias da infância era dela, dez anos mais velha do que eu, sentada no sofá, concentrada naquele objeto misterioso que tinha nas mãos. Se, no meu olhar de criança, meus pais eram os grandes exemplos de gente-grande bem resolvida, ela tinha um ar enigmático e silencioso que muito me intrigava e, ao mesmo tempo, intimidava. Eu queria ser como ela, embora não soubesse muito bem por quê.
Certo dia, num rompante de coragem do auge dos meus quatro anos, fui até o quarto dela e surrupiei da estante uma daquelas coisas que ela sempre carregava pra todos os cantos. Sentei-me no sofá e tentei imitar todos os gestos que ela tinha quando fazia aquele ritual. Tinha escolhido a capa mais colorida da estante dela: era uma edição de 1984, de George Orwell. Enquanto tentava entender qual era o encanto daquele monte de formiguinhas imóveis espalhadas pelo papel, percebi que ela me olhava com muita curiosidade e um sorriso enorme no rosto. Eu, que estava com medo de tê-la irritado e de levar uma bronca, comecei a ficar mais calma, mas percebi que ainda não conseguia brincar com aquilo. Ela levantou-se, foi até o quarto e trouxe de volta uma obra muito mais adequada para a minha idade, feita quase exclusivamente de figuras muito grandes e cheias de cores.
– Aqui – ela disse, com um tom muito suave na voz. – Acho que vai gostar mais desse.
Foi ali que surgiu meu interesse pela literatura. Naquela breve conversa que tivemos, muito mais de gestos e olhares do que de palavras. Naquele carinho sutil. Naquela tentativa de ser como ela era.
A partir de então, comecei a procurar cada vez mais avidamente por livros. Ela era a maior incentivadora desse meu novo hábito, sempre entregando exemplares novos em minhas pequenas mãozinhas. As palavras ditas, no entanto, continuavam sendo quase nulas. Nosso modo de demonstrar amor e cumplicidade uma pela outra era diferente do da maioria das pessoas, e meus pais sempre encaravam aquela situação toda com uma estranheza razoável.
Mas os anos foram vindo e trouxeram com eles uma diminuição no meu interesse. Eu já não fazia mais tanta questão de seguir os passos daquela pessoa tão quieta com quem eu convivia, e outros estímulos foram roubando a atenção que eu dava para os livros. Eu percebia um ar de tristeza nos olhares dela, como se estivesse perdendo o laço que criara comigo.
Foi repentinamente que me dei conta das mudanças que estava vivendo. Assim, de súbito, senti que minha infância ia desaparecendo ao longe e que ia cada vez mais tornando-me uma adulta, perdendo, junto com a inocência, alguns dos meus costumes de criança. O sentimento de confusão foi grande e curioso: estava pronta para tudo aquilo? Eu não sabia bem quem eu era naquele momento, e muito menos quem eu queria ser nos anos vindouros.
Num dia cheio de desassossegos, cheguei em casa e a vi sentada no sofá, em sua posição costumeira, aparentemente inabalável. A conexão que tinha com ela voltou de forma arrebatadora, e quando dei por mim, estava sentada no sofá ao lado dela, compelida a contar tudo o que sentia. Ela voltara a ser aquela figura enigmática que eu admirava quando mais nova. Mas e se… e se o segredo da nossa relação fosse a ausência de oralidade? E se nossa linguagem fosse a dos olhares, dos gestos e dos livros? E se eu estragasse tudo a partir do momento em que eu abrisse a boca?
Olhei para ela e notei que ela percebera minha inquietação. Tinha fechado o livro e olhava para mim de forma interrogativa. Eu não podia mais guardar aquilo tudo ali dentro e fingir que vivia um dia como qualquer outro. Respirei bem fundo e contei.
– Não, eu não te acho ridícula – foi a resposta que ouvi depois dos longos e angustiantes segundos de silêncio que se seguiram à minha pergunta. O sorriso no rosto dela era carinhoso, mas eu ainda estava um pouco em dúvida quanto ao que havíamos vivido e minha percepção estava prejudicada. – Só acho que você é nova demais para uma crise de adultismo. Mas quem entende como funciona a adolescência?
Ela levantou-se e seguiu para o quarto. Poucos minutos depois, voltou com Clarissa nas mãos. Estendeu o livro para mim e disse, no mesmo tom suave que usara dez anos antes:
– Aqui. Acho que vai gostar. Depois conversamos sobre ele.
A verdade é que esse depois nunca veio. Quando terminei o livro, olhei para ela com um sorriso de agradecimento e ela compreendeu.
Depois disso, decidi mudar a estratégia. Passei a também recomendar alguns livros a ela, contando, por meio das narrativas, o que estava sentindo naquele momento de minha vida. Ela logo percebeu e, sentindo a abertura, resolveu fazer o mesmo. Até hoje é assim. Quando notamos uma sucessão de livros tristes nas recomendações uma da outra, sentamos para conversar mais longamente. Caso contrário, seguimos nos comunicando por meio desse idioma tão nosso.

Anúncios

Atestado de óbito

Eis que ressurge a autora desse blog depois de um tempo calada por motivos pessoais. Fiquem com essa reflexão sobre a vida em forma de poema.

Por meio deste documento
Venho atestar o falecimento
Desta peça de teatro
Na qual não atuamos mais

Foram anos de grande sucesso
E um incontestado progresso
Mas alcançamos o último ato
Já no mais triste fracasso

Mais de uma década em cartaz
Período ao mesmo tempo tão fugaz…
E agora as cortinas se fecham
Os aplausos cessaram há muito

Por meio deste documento
Venho atestar o falecimento
Dessa farsa, dessa comédia
Que encenamos sem grande embaraço

Que horas será o velório?
E depois, cemitério ou crematório?
Quem chorará a perda?
Quem sentirá alívio imediato?

A missa está paga, encomendada
E ainda sem data marcada
Pois ninguém quer nos ombros o peso
De assumir a morte da representação

Então, pondo fim à indecisão,
Assino, sozinha, a certidão.
Finda a companhia, acabada a parceria
Troca-se a peça, são outos os roteiros

Por meio deste documento
Venho atestar o falecimento
Que não tínhamos coragem de confirmar
Mas tivemos coragem de consumar.

Texto: O amor é uma curva acentuada à esquerda

Meio-dia. Ônibus lotado. Sol a pino, calor humano e nenhum sinal de nuvem no céu. Esse era o cenário em que chegou Maria Alice, carregando uma bolsa pesada e uma ecobag cheia de coisas. Estava voltando cansada da faculdade e queria sentar-se no primeiro banco que estivesse vazio. Mas não tinha bancos vazios. Ela parou em pé perto da porta, colocou a sacola entre as pernas e permaneceu lá, observando a paisagem pela janela até que algum lugar vagasse.
Eduardo estava sentado ali, pertinho da porta, lendo. Estava de folga naquele dia e ia almoçar na casa de um amigo. Absorto na leitura, às vezes parava e pensava naquele trabalho chato que teria de fazer depois, quando a comida assentasse.
De repente veio a curva. Aquela curva maldita, a curva da discórdia. Os motoristas nunca perdoavam e sempre dirigiam em alta velocidade – porque ali, até 20 km/h era exagerado. Qualquer um que estivesse de pé tinha de rezar para todos os santos para não cair. Principalmente Maria Alice, desengonçada que era e ainda com todo aquele peso nos ombros.
Segurou forte, inclinou-se para um lado, depois para o outro, mas não teve jeito: a bolsa escorregou até o cotovelo, ela tropeçou e quase caiu de cara no colo dele. Sim, por coincidência, ela estava em frente ao assento de Eduardo, mas eles ainda não tinham se visto. Maria Alice pediu desculpas, ele se ofereceu para segurar sua bolsa, ela aceitou e se apaixonou. Assim, à primeira vista. Assim, porque ele tinha sido gentil.
A partir de então, deixou de admirar a paisagem e só tinha olhos para ele. Aquele sorriso lindo e simpático, aquela barba por fazer, o cabelo meticulosamente bagunçado, os olhos claros. Ah, meu Deus, como ela não o tinha notado antes? Em que mundo a cabeça dela estava?
Enquanto ela perdia-se em seus pensamentos, a pessoa sentada ao lado dele pediu licença e saiu do ônibus. Eduardo ficou de pé e olhou para Maria Alice, convidando-a com a cabeça a sentar-se ao seu lado, na janelinha. Ela assentiu radiante, era recíproco! Ele também estava interessado nela! Ah, como seriam felizes juntos…
Já sentados, ele voltou para a leitura e ela, fingindo estar muito ocupada, tirou um texto da bolsa e pegou para ler também. De fato, no dia seguinte o professor comentaria aquele autor. Mas ela não conseguia avançar uma linha sem olhar de soslaio e tentar ver que livro seria o dele. Será que tinha bom gosto literário?
Eduardo tinha imergido novamente na história e mal dava atenção para ela. Também não dava sequer uma brechinha para que ela pudesse ver ao menos o autor do texto. Aflita, chegou a esbarrar no braço dele para pedir desculpas e ver se ao menos ele levantava os olhos. Nada, ele só sorriu de leve e disse “que é isso”.
Ah, aquele sorriso… De todas as coisas, ela só queria que ele descesse depois dela, só para não vê-lo partir. Ou então descessem juntos! Que maravilha não seria se eles desembarcassem no mesmo ponto, e pudessem inclusive caminhar por algum tempo na companhia um do outro. Talvez morassem próximos um do outro, ou até no mesmo prédio.
Enquanto pensava nisso, Eduardo deu sinal. Maria Alice entrou em desespero: ainda faltavam cinco pontos para ela descer. Precisava dizer algo, o tempo estava passando. Perguntar o nome… não, muito pouco. Pedir o telefone… muito direto. Perguntar o nome dele e o do livro, sim, essa seria a melhor forma de abordagem e…
– Tchau tchau.
– Tchau…
Droga. Tinha pensado demais. Demorado demais. Ele tinha ido embora. Ela não sabia nem seu nome, como ia encontra-lo novamente? Eles tinham tanto potencial juntos! Seriam muito felizes, teriam filhos lindos, de olhos azuis. Ou talvez ele estivesse indo para a casa da namorada, e por isso não tinha conversado com ela. Ai, o amor não correspondido e um coração partido, como doem.
Pegou o texto na mão de novo. Estava aberto na mesma página há 20 minutos, desde que o pegara. Tentou ler mais uma vez, mas logo o guardou na bolsa. Não conseguia concentrar-se em nada.
Desceu do ônibus pensando em Eduardo, que para ela podia ter milhares de nomes. Olhou em frente e viu o ex-namorado entrando em casa. Ficou mais leve e de consciência mais tranquila. É, talvez fosse só carência.

Mais um texto daqueles ficcionais de quando me dá uma inspiração louca e eu escrevo assim, sem motivo.
Bom, talvez não esteja sendo muito sincera: o motivo desse texto chama-se Luís Fernando Veríssimo. Terminei hoje de ler Amor Veríssimo, um livro muito divertido e que eu recomendo. E como sou apaixonada por ele e pelo modo como ele escreve, acabei me inspirando e escrevendo essa crônica durante a tarde.
Espero que tenham gostado =D

P.S.: Criei uma fan page pro blog no facebook! Clique aqui e curta =D

A volta dos que quase foram

Bu!
“Óh! O que é isso? A loira do banheiro? A noiva cadáver? O gasparzinho?”
Não, caro leitor. É só a autora desse blog que retorna da terra do abandono.
O que houve durante esse tempo? Bem… Uma crise de criatividade das mais terríveis. Não me atrevo a dizer que saí dela, mas talvez essa seja uma última tentativa de fazer aquele motor de quinta, já velho e fraco, pegar no tranco e dar mais uma andadinha. Aqui vai um poemeto ruinzinho de tudo que escrevi num lampejo de criatividade. De qualquer forma, se isso não persistir, eu voltarei no final de dezembro com uma retrospectiva dos livros que li esse ano. Aguardem!

Alma grande, alma pequena
De que valem a mão, a pena
E toda espécie de cena
Àquele esquecido poeta
Dos versos sem rima correta?

De que valem papel e caneta
Quiçá o fogo de uma paixoneta
Ao desesperado romancista
Que das palavras virou antagonista?

De que valem mouse e teclado
A um cronista amargurado
Que por eventos cotidianos
Tem interesses medianos?

Talvez sejam inspirações,
Sutis, belas motivações
Um leve sopro de esperança
Em meio a toda a cobrança

Mas talvez sejam ilusões,
Sonhos, meras alusões
Àquilo que um dia era verdade
E agora é só irrealidade

Texto: O Telefonema

Ela não costumava acordar antes das oito da manhã, mas naquele dia abrira uma exceção. Às sete já estava de pé e de banho tomado, sentada em frente à mesinha do telefone. Não tirava os olhos dele. Se seu olhar fosse um fuzil, já teria destruído todos os apartamentos abaixo do dela só com aquele olhar fulminante em direção ao telefone.
Telefone. Aquele aparelhinho tão comum, tão simplório, que ela nem sequer gostava! Mas ela precisava olhá-lo. Quanto mais olhar, mais rápido ligarão. Não importa que o horário comercial ainda nem tenha começado. Talvez algum deles tenha chegado mais cedo e então decidido ligar…
Triiiiiim.
– Alô?
– Alô filha? Tudo bem?
– Tudo, mãe… – respondeu em tom enfadonho, suplicando mentalmente para que a mãe entendesse o recado sutil e desligasse logo.
– Que bom, minha filha. Como vão as entrevistas? Alguma novidade?
– Não. Na verdade, eu estou esperando uma…
– Ah, então minha filha, eu pesquisei algumas lojas de aluguel de vestidos pro casamento da sua prima, daí achei uma que tem uns vestidos muito bonitos – a mãe era interrompida por incessantes “ahams” da filha – Quer o endereço?
– Mãe, será que você não poderia ligar outro dia para passar esse endereço? Pensando melhor: eu te ligo, ok?! Pode ser assim?
– É rapidinho, filha, anota aí. Tem uma caneta e um bloco por perto?
– Tenho sim – ela não tinha, nem queria anotar. Ligaria outra hora dizendo que tinha perdido a folha. Ou então procuraria outra loja, já que os gostos dela e da mãe nunca batiam em relação a vestuário. Só queria encerrar aquela ligação.
– Anotou?
– Anotado!
– Ok, meu benzinho. Me avisa se tiver alguma novidade, tá?!
– Certo.
– Beijo, mamãe te ama, viu?! Tô com saudades!
– Beijo, também te amo, a gente se fala outro dia pra matar as saudades.
Desligou. Olhou para o relógio, temerosa de que já tivesse passado muito das oito. Ainda faltavam quinze minutos pras oito horas. Suspirou bem fundo e ajeitou-se na cadeira. Apoiou a cabeça em uma das mãos e voltou a fitar incessantemente o telefone em silêncio.
Nas horas que se seguiram, ficou irrequieta: trocou a posição dos braços e das pernas, levantou-se, andou em volta da mesa do telefone, voltou a sentar-se. Checava constantemente o relógio na parede: os minutos demoravam a passar!
Era por volta de meio-dia e meia quando o telefone tocou novamente, uma vez só. Atendeu prontamente, com o coração palpitante:
– Alô?
– Oi, amor.
– Oh céus… – pensou alto.
– Que foi? Tá tudo bem?
– Tá, tá sim, amor. É que eu tô esperando uma ligação.
– Ah, sim. Quer que eu ligue daqui a pouco?
– Não ligue hoje!
O silêncio mortal que se seguiu a assustou. Ela sabia que tinha dito por impulso, ela entendia o sentido por trás do que dissera, mas sabia também que ele não entenderia. Então, por mais que não quisesse que ninguém a incomodasse naquele dia, procurou retratar-se.
– Quer dizer, também quero falar com você, mas essa ligação pode ocorrer a qualquer hora, não posso me dar ao luxo.
– Posso ir aí de noite, então?
– Pode… – disse hesitante. Não estava feliz com aquilo, mas talvez a presença dele ajudasse a distrair.
– Ok, então quando der umas sete eu passo aí pra jantarmos e vermos um filme, tudo bem?
– Tudo.
– Te amo, até mais tarde.
– Até. Também te amo.
Respirou fundo e pensou por um momento em como, ao mesmo tempo, seria terrível tê-lo por perto. Não poderia dar a devida atenção, muito embora o horário fosse ótimo.
Já passava das três da tarde quando se lembrou de que deveria almoçar, ou ao menos tentar comer algo. Foi até a cozinha e rapidamente preparou um misto frio. Quase cortou os dedos junto com o pão. Voltou correndo para a mesa do telefone e comeu ali mesmo.
Cinco horas. Talvez o horário deles fosse mais elástico. Talvez trabalhassem até as seis. Quem sabe até as sete?  Permaneceu ali, quase estática, desacreditada de que fossem realmente cinco horas. O tempo passou tão rápido…
Tinha perdido totalmente a noção do tempo e olhava absorta para o relógio quando a campainha tocou. Ficou um tempo em dúvida sobre quem poderia ser até lembrar-se de seu namorado. Foi abrir a porta.
– Oi, amor! Vamos comer primeiro? Ou prefere ver o filme?
– Oi… É… Não sei… Tanto faz… – ainda estava meio atônita.
– Vamos ver o filme primeiro. Você está com uma cara estranha. Tá tudo bem?
– Tá, tá sim.
Durante boa parte do filme, ela não tirou os olhos do telefone. Sabia que provavelmente não ligariam mais, mas ainda estava aflita. Ele pausou o filme e ficou um bom tempo olhando para ela, sem que ela percebesse.
– Você sabe que eles não vão ligar mais, não é? Que o horário comercial acabou?
– Sei
– Então deixe quieto, amanhã te ligam. Mas afinal, de quem é essa ligação?
– Hã? Ah, é… É de… – pigarreou um pouco e a fala não saiu. Suspirou.
– Ok, é o seguinte: não vou ficar aqui sendo que você finge que nem existo. Ou você esquece esse telefonema ou eu vou embora.
Como não obteve resposta, ele pegou o casaco que estava pendurado na cadeira e disse num tom de voz mais alto:
– Se você tiver alguma intenção de voltar a falar comigo, me procure, ok?! – saiu e bateu a porta.
Ela queria dizer algo. Queria ir atrás dele e não deixá-lo ir embora. Mas estava de certa forma aliviada com sua ausência. Amanhã daria um jeito nisso. Ou talvez outro dia, depois que ligassem.
Nem sequer jantou naquela noite. Sentou-se novamente em frente ao telefone e ficou lá por um bom tempo, quase que imóvel. Quando deu por si, era quase meia-noite. Mas não queria ficar longe do telefone. E se alguém tivesse se debruçado sobre seus trabalhos e estivesse acordado até àquela hora, analisando tudo minuciosamente? Poderiam ligar de casa, para dizer-lhe que estava tudo ótimo. Ou que estava tudo péssimo. Apagou a luz e deixou somente o abajur ligado, olhando para aquele aparelho e esperando, esperando…
Acordou de um sobressalto com o barulho do telefone. Levantou-se rapidamente, empertigou-se e atendeu ao telefone, a voz ainda um pouco rouca.
– Alô?
– Bom dia, é da casa da senhorita Clara Muniz?
– Sim, sim, sou eu.
– Olá, bom dia, Clara! A senhorita pode falar ou é muito cedo?
– Não, pode falar, sou toda ouvidos.
– Certo. Meu nome é Júlia Rodrigues, sou a editora que está cuidando do seu texto. Será que a senhorita poderia me enviar o próximo capítulo? Achei a ideia do romance interessantíssima!
Ela abriu um enorme sorriso.

Mais um texto fictício para vocês, meus caros leitores. Não digo que ele não tenha qualquer relação com a minha vida porque, afinal de contas, ainda tenho pretensões de estar dos dois lados dessa história, tanto da autora quanto da editora.
Espero que tenham gostado ^^

Texto: Nove de Agosto

Os sapatos velhos e surrados soavam e ecoavam ao encontrar o chão. Ao alcançarem o devido destino eles se acomodaram, e o corpo por eles sustentado sentou-se naquele banco antigo e habitual da praça. A madeira rangeu lentamente com o peso daquele senhor de óculos e de cabelos grisalhos, com a pele já enrugada e com rosto de avô carinhoso.
O senhor dobrou uma das pernas em cima da outra e posicionou as mãos unidas no colo. Ficou estático por algum tempo, observando partículas de ar moverem-se de um lado para o outro com seus olhos irrequietos. Uma borboleta laranja desbotada e com contornos pretos pousou no galho da árvore ao lado e pareceu observá-lo.
A cidade foi acordando lentamente e abrindo as janelas. Era nove de agosto novamente. Do outro lado da praça, através das janelas, era possível ver o bom velhinho sentado sozinho em um banco da praça central da cidade. Nos três primeiros anos aquilo pareceu insanidade de um senhor que, pobrezinho, já caducava. Mas agora, passados dez anos de sua mudança para aquela cidade minúscula do interior, a pitoresca cena de nove de agosto já fazia parte do cenário. Era quase que um evento para os moradores: os mais velhos intrigados com o motivo que levava aquele homem a passar o dia todo naquele banco, divertindo-se como se tivesse vinte anos novamente; os mais jovens, um tanto impacientes, alguns até zombeteiros; as crianças, muitas delas surpresas, cheias de questões as quais o homem não dava atenção.
Mais de meia hora se passou até que ele começou a falar sozinho. Todo ano o mesmo ritual: ele acompanhava o vazio com o olhar, fazia sinal como se chamasse alguém, pedia-lhe que sentasse ao seu lado. Descruzava as pernas, insistia no convite. Levantava-se, curvava-se como que a cumprimentar alguém e botava-se sentado mais uma vez. Ficava alguns minutos quieto, até que começava a falar mais uma vez e então ria-se e surpreendia-se com algo desconhecido por todos.

***

Ele abriu a janela naquela manhã resoluto e corajoso. Tinha finalmente decidido que iria conversar com a garota nova da cidade! Inspirou o ar com bastante força e sorriu com a certeza de que aquele dia seria o dia dele.
Colocou suas melhores roupas: separou a camisa e a calça que usaria na missa do dia seguinte e resolveu dar um melhor uso para elas na arte da conquista. Separou o casaco do paletó que usara no casamento de uma velha tia e que já estava ligeiramente apertado, mas nada que se pudesse notar. Calçou os sapatos e saiu em direção à praça.
Era dia nove de agosto, um sábado. Ela sempre passava por lá aos sábados! Sentou-se no banco central, cruzou as pernas e posicionou as mãos unidas no colo. Passou alguns minutos observando o vazio com ansiedade. Uma borboleta de um rosa vivo pousou na árvore ao lado, pegou uma folha que jazia no galho e, ligeira, alçou voo novamente.
Era ela! Ela passaria por ali em alguns minutos! Ah, o coração acelerado, a respiração ofegante e descompassada, aqueles sintomas de amor. Ele seguiu a silhueta dela com o olhar e finalmente conseguiu dizer umas poucas palavras:
– A senhorita vai passear pela praça da cidade e nem vai se apresentar para o morador que ainda não conhece?
Ela olhava um pouco confusa e constrangida para aquele jovem rapaz, como se tivesse cometido a maior gafe da qual se tivesse conhecimento.
– A senhorita não está com pressa, está?! Vamos, sente-se ao meu lado, faça-me companhia e me conte um pouco mais sobre o rosto que, apesar de novo, já conquistou o posto de mais belo da cidade.
– Ah, não sei se devo… – respondeu a garota, com as bochechas coradas.
– Mas que mal tem se apresentar para o vizinho? Vamos! Aceite o convite!
Ele então se levantou e estendeu os braços para o lugar vazio no banco em que estava sentado. À medida que ela se aproximava e aceitava o convite, ele curvava-se para cumprimentá-la cordialmente. Os dois sentaram-se e ficaram em silêncio por algum tempo, até que ele puxou assunto e eles engrenaram uma longa conversa, que foi ficando cada vez mais íntima e amigável. Acharam-se conversando até o pôr do sol, quando ambos despediram-se um do outro e tomaram o caminho de casa, com a certeza de terem encontrado suas respectivas almas gêmeas.

***

O pôr do sol já dava sinais de que despontaria a qualquer minuto. A cidade já estava mais quieta, cada qual a seu canto, com exceção de algumas crianças que ainda admiravam aquele espetáculo do senhor caduco que conversava com uma pessoa inexistente.
– Ei, o senhor sabe que não tem ninguém aqui, não é?! – perguntou um garotinho que apoiava a cabeça no braço do banco.
O senhor lentamente voltou da dimensão paralela na qual se encontrava, piscou freneticamente e então olhou ternamente para o garotinho, com um meio-sorriso no rosto, para dizer:
– Há coisas que só algumas pessoas podem ver. Tem uma pessoa sentada aqui, mas só eu posso vê-la. É como se fosse minha amiga imaginária, entende?
O senhor então deixou o banco e levantou-se em direção a sua velha casa. Ao entrar, olhou atentamente para o retrato de seu casamento com aquela bela jovem com a qual falara há poucos minutos. Sentou-se na poltrona, pegou o retrato, colocou-o contra o peito e disse:
– Ah, aquele nove de agosto…
A borboleta que pousara na árvore durante a manhã então deixou o galho, foi até o chão e agarrou uma folha que jazia caída no chão. Lentamente e com fraqueza ela foi tentando planar sobre a cidade, levando a folha sempre consigo.

Fazia tempo que eu não escrevia um texto assim, cem por cento fictício e sem qualquer relação com a minha vida… espero que tenham gostado, porque eu adorei escrevê-lo! ^^