Minhas citações preferidas

Daí que eu adoro “roubar” ideias alheias de post.
Eu não me orgulho disso.  Mas a verdade é que eu penso em fazer algo nesse estilo desde que vi o desafio das 52 semanas pela primeira vez, e o recente post da Livoneta só trouxe de volta essa vontade. Só que vocês já devem ter percebido que eu não gosto de seguir as típicas regras que costumam estabelecer pra esse tipo de coisa, então resolvi criar as minhas próprias regras pra brincar: serão três citações da literatura, três de séries e três de música.
Antes de começar, preciso esclarecer certas coisas. Algumas das citações foram escritas na língua portuguesa, mas outras vêm de obras em inglês. Nesse segundo caso, decidi manter as versões originais no post, mas caso você não entenda inglês, nada tema: é só ir até a seção de comentários que deixarei traduções livres feitas por mim de todas elas por lá. Ah, e vale mencionar que haverá spoilers no post, principalmente nas citações de séries. Você pode ler por sua própria conta e risco. De qualquer forma, deixei os nomes e os números dos episódios ao lado do nome do seriado pra vocês terem uma noção se já passaram pelo episódio em questão.
Sem mais delongas, vamos a elas

Literatura

Dom Casmurro
Existem milhares de citações do Machado que eu poderia ter incluído aqui, e talvez Dom Casmurro nem seja o romance dele com as citações mais marcantes e conhecidas por aí, perdendo o posto pra Memórias Póstumas. Mas é meu livro favorito, e cada vez que eu releio o grupo de capítulos que vai de “As Curiosidades de Capitu” (XXXI) até “Sou Homem!” (XXXIV) eu fico embasbacada. É impressionante como ele consegue resumir em pequenos detalhes alguns dos principais aspectos do livro como um todo. Isso sem contar que algumas passagens servem pra mostrar que Machado, quando quer ser poético, trabalha o lirismo de uma maneira tão dele e tão linda. Eu poderia separar aqui todo o trecho em que Bentinho descreve os benditos “olhos de ressaca” de Capitu, porque poucas coisas que eu li na minha vida são mais bonitas  do que aquilo, mas decidi escolher um trecho simples e curto que eu acredito que demonstre bem a personalidade dos dois personagens principais. Logo após o primeiro beijo, vemos como Capitu, mulher forte e dona de si, está em pleno controle da situação, enquanto Bentinho, amedrontado no seu complexo de inferioridade, fica ali, sem saber o que fazer.

“Assim, apanhados pela mãe, éramos dois e contrários, ela encobrindo com a palavra o que eu publicava pelo silêncio” – Machado de Assis

Incidente em Antares
Aaaaah, esse livro. Eu já falei tantas vezes dele nesse blog que vocês já devem estar enjoados. As pessoas que convivem comigo, então, não devem aguentar mais as minhas constantes recomendações pra que elas leiam Incidente em Antares o mais rápido que puderem. Não só ele tem um enredo extremamente instigante e que te prende por completo, ele também tem um final arrasador e um dos melhores trechos que eu já li, que ganhou até post no meu facebook (coisa que eu faço de vez em nunca). Acredito que sejam poucos os personagens que conseguem traduzir, como Cícero Branco o faz nessa citação maravilhosa, a hipocrisia humana desse nosso “baile de máscaras” e o modo como a elite faz de tudo para manter a plebe fora do baile, distante, num lugar onde ela não possa atrapalhar os “convivas felizes”. 

“(…) a vida mais do que nunca me parece um baile de máscaras. Ninguém usa (nem mesmo conhece direito) a sua face natural. Tendes um disfarce para cada ocasião. Cada um de vós selecionou sua fantasia para a Grande Festa. (…) E que baile! Também tomei parte nele e usei mil máscaras, mil disfarces. Aprendi a manipular a moeda corrente (falsa mas fácil) das mentirinhas cotidianas, das grandes mentiras e das meias verdades… Tornei-me um mestre em vossas danças e contradanças. Respeitei o vosso código, que manda aceitar as imposturas e simulações dos outros mascarados para que eles, em retribuição, aceitem as nossas…(…) Para vós o importante é que a festa continue, que não se toque na estrutura, não se alterem os estatutos do clube onde os privilegiados se divertem. A canalha que não pode tomar parte na festa e se amontoa lá fora no sereno, envergando a triste fantasia e a trágica máscara da miséria, essa deve permanecer onde está, porque vós os convivas felizes achais que pobres sempre os haverá, como disse Jesus. E por isso pagais a vossa polícia para que ela vos defenda no dia em que a plebe decidir invadir o salão onde vos entregais às vossas danças, libações, amores e outros divertimentos” – Erico Verissimo

To Kill a Mockingbird
A citação que virá a seguir é até um pouco paradoxal em relação à anterior. Ao mesmo tempo, ela é um sopro de esperança depois de um tapa na cara hahaha… já até falei dela uma vez antes aqui no blog. To Kill a Mockingbird procura mostrar para seu leitor uma série de preconceitos que permeiam a sociedade vistos pelos olhos de uma criança. Além do racismo que aparece com muita força no julgamento de Tom Robinson, o desprezo dos habitantes de Maycomb por Boo Radley também diz muito sobre como raramente nos colocamos no lugar do outro. A frase de Atticus é exemplar de algo que ainda falta muito hoje em dia: a empatia. Não podemos tentar entender as dores alheias sem antes perceber que não passamos pelas mesmas coisas.

“You never really understand a person until you consider things from his point of view (…) until you climb into his skin and walk around in it” – Harper Lee

Séries

Supernatural (Swan Song – 5×22)
Temos aqui mais uma citação que já foi mencionada nesse blog antes. Apesar de amar profundamente a série, penso muitas vezes se ela não deveria, de fato, ter terminado na quinta temporada. Não só porque eu ache que as temporadas posteriores são mais fracas e essa 12ª tá sofrível, mas também porque eu acho que Swan Song tem toda a carinha de um series finale perfeito. Os Winchesters conseguiram a vitória do livre-arbítrio fazendo a escolha mais bonita e mais coerente com o resto de toda a série: família. O amor que eles têm um pelo outro supera todas as coisas, salva o mundo e ajuda a confirmar para os humanos o direito que temos de escolher como queremos nossas vidas.

“Up against good, evil, angels, devils, destiny, and God himself, they made their own choice. They chose family. And, well, isn’t that kind of the whole point?” – Chuck Shurley

The Blacklist (Anslo Garrick – 1×09)
Existem poucas coisas mais deliciosas do que ouvir o incrível roteiro de The Blacklist na voz de James Spader. Reddington tem tiradas brilhantes, um humor afiadíssimo e uma risada muito gostosa de ouvir, mas os momentos em que ele mais brilha são aqueles com apelo emocional, em que o ator capricha nas pausas, na tonalidade da voz e na expressão. Não só o personagem tem histórias maravilhosas pra contar, como também faz monólogos com suas experiências de vida que são capazes de tocar até mesmo o mais frio dos espectadores. Nesse diálogo, ele pode até falar basicamente de situações que a riqueza dele pôde proporcionar, mas o sentimento como um todo é partilhado por todos os que assistem à cena. E essa merece não só ser lida, como ser ouvida (ela começa em 1:03 do vídeo).  Menção honrosa pra todo o diálogo final entre ele e a Liz no 3×02 (Marvin Gerard), que seria extenso demais pra reproduzir aqui e que é mais complexo do que uma citação só, mas nossa senhora que coisa linda ❤

“Have you ever sailed across an ocean, Donald? (…) On a sailboat surrounded by sea with no land in sight, without even the possibility of sighting land for days to come? To stand at the helm of your destiny? I want that one more time. I want to be in the Piazza del Campo in Siena, to feel the surge as ten racehorses go thundering by. I want another meal in Paris at L’Ambroisie in the Place des Vosges. I want another bottle of wine and then another. I want the warmth of a woman in the cool set of sheets. One more night of jazz at the Vanguard. I want to stand on summits and smoke Cubans and feel the sun on my face for as long as I can. Walk on the Wall again. Climb the Tower. Ride the River. Stare at the frescos. I want to sit in the garden and read one more good book. Most of all I want to sleep. I want to sleep like I slept when I was a boy. Give me that. Just one time. That’s why I won’t allow that punk out there to get the best of me, let alone the last of me.” – Raymond Reddington

Penny Dreadful (A Blade of Grass – 3×04)
Em primeiro lugar, sdds Penny Dreadful. Não é segredo que eu amo os episódios que são basicamente um “The Vanessa Ives Show“. Também não é segredo que ela e a criatura são meus personagens preferidos da série. Então um episódio que aborda o passado dela somado à amizade dos dois tinha tudo pra se tornar o melhor episódio pra mim. Junte-se a isso o roteiro MARAVILHOSO e não teve jeito: sou absurdamente apaixonada por A Blade of Grass. Ao longo de todos os quase 60 minutos de episódio eu senti meu coração ser destruído em diversos pedacinhos sem dó, então foi difícil escolher uma cena só como ponto alto, mas acho que essa citação fala muito dos dois personagens, então não teve jeito. E só de lembrar eu sinto um aperto gigantesco. E essa é outra que eu recomendo ser ouvida, porque MEU DEUS Rory Kinnear!

“I was at home, yesterday night past. And I was helping my son with a wooden ship model. That’s something we do. And he asked me about the ship. I said it was the kind of ship used for exploring the seas. And he said, ‘Where do they explore, Father?’. And I told him, ‘Everywhere. The Orient, Peru and even the frozen North’. And he says, ‘What’s that, Father?’. And so I told him it was the places all covered with snow. North of Scotland and even beyond that. And he said, ‘Do people live there?’. And I said, ‘No. It’s too cold and lonely all the time. No one lives there’. And I started to cry. And I couldn’t stop. My son took my hand. I couldn’t stop crying. (…) Because I realized I was wrong. One person does live there, where it’s cold and lonely all the time. So I tendered my resignation. I’ll stay on long enough to see you tomorrow. The last person you see before the surgery will be someone who loves you” – The Orderly

Músicas

Clocks
Por algum motivo, eu sempre senti que “Clocks” era a música que mais me representava, aquela que mais parecia ter sido escrita pra mim.  São vários os elementos responsáveis por isso: o piano, a participação dela em momentos importantes da minha vida, a ligação emocional que eu tenho com ela e esse trecho em específico. Acredito que a dúvida sobre ser parte da cura ou da doença é algo que aparece em muitas pessoas em diferentes momentos da vida, e ela paira na minha cabeça já por alguns anos a fio. Essa questão pode ser entendida a partir de tantas interpretações diferentes que daria pra fazer um post só sobre como ela se desdobra, mas sem dúvida ela sempre conversou muito comigo.

“Am I a part of the cure or am I part of the disease?” – Coldplay

Miniature Disasters
Essa foi uma das primeiras coisas da KT que eu ouvi na minha vida. Fiquei encantada com o refrão, mas acho que o trecho que mais falou comigo foi o finalzinho da segunda estrofe. Essa busca por entender melhor a si mesma quando o mundo a sua volta não facilita muito é algo bem real e bem profundo.Em diversas situações da minha vida eu tive a clara sensação de que não conseguia me comportar da forma como deveria, e de que falava uma língua diferente daquela que todos partilhavam. Porque, afinal, algum motivo eu tinha de ter pra ter escolhido o título dessa música como nome do meu blog, não é mesmo?! 

“And I need to patient, and I need to be brave / I need to discover how I need to behave / And I’ll find out the answers when I know what to ask / But I speak a different language / And everybody’s talking too fast” – KT Tunstall

Roda Viva
Ah, Chico… Esse homem é, definitivamente, meu letrista favorito, então foi difícil escolher apenas uma música pra constar nessa lista. 
Acho que daria pra fazer um compilado de citações preferidas só a partir das músicas do Chico. Pensei em “Construção”, mas a minha vontade seria de incluir a música toda, e não um trecho específico. Depois de muito penar, optei pelo comecinho de “Roda Viva” porque acho que ele passa uma mensagem que é, ao mesmo tempo, reflexiva e um pouco pessimista (e é minha cara gostar de coisas pessimistas). É bem triste pensar que nem sempre a gente consegue mandar na nossa própria vida, e que isso faça com que a gente às vezes sinta que paramos, que morremos, que não damos mais conta.

“Tem dias que a gente se sente / Como quem partiu ou morreu / A gente estancou de repente? / Ou foi o mundo então que cresceu? A gente quer ter voz ativa / No nosso destino mandar / Mas eis que chega a roda viva / E carrega o destino pra lá” – Chico Buarque

Anúncios

Texto: Nosso Idioma particular

Olha só quem apareceu após uma ausência de vários meseees!
O segundo semestre de 2016 foi uma verdadeira loucura na minha vida. Entre terminar o TCC e fazer outras diversas atividades acadêmicas, acabei abandonando um pouco o mundo blogueiro. Além de ter deixado meu blog na mão, parei de responder comentários, tanto por aqui quanto nos cantinhos mais queridos da internet. Não tive sequer tempo pra ler posts novos! Depois fui assomada por uma daquelas famosas crises de “não gosto de nenhum dos textos que escrevo”, e só agora tenho retomado um pouco as rédeas da minha criatividade (fica bonito quando dito assim, não?!). De qualquer forma, pretendo ir voltando a frequentar a blogosfera aos pouquinhos, tenham paciência comigo…
Fiquem com esse pequeno conto, o primeiro texto fictício que eu escrevi após uma abstinência de mais de um ano

– Você acha que eu sou ridícula, né?!
Lembro-me até hoje do sorriso que minha irmã deu quando terminei de contar para ela o que sentia. Meu coração estava tão acelerado que não teria sido grande surpresa se ele tivesse saltado do meu peito como naquelas cenas de desenho animado. Apesar dos meus catorze anos de idade, aquela era uma das primeiras vezes em que conversávamos de fato, sem o intermédio de nosso pai ou de qualquer plataforma escrita.
Apesar disso, tínhamos uma conexão muito grande. Uma das minhas primeiras memórias da infância era dela, dez anos mais velha do que eu, sentada no sofá, concentrada naquele objeto misterioso que tinha nas mãos. Se, no meu olhar de criança, meus pais eram os grandes exemplos de gente-grande bem resolvida, ela tinha um ar enigmático e silencioso que muito me intrigava e, ao mesmo tempo, intimidava. Eu queria ser como ela, embora não soubesse muito bem por quê.
Certo dia, num rompante de coragem do auge dos meus quatro anos, fui até o quarto dela e surrupiei da estante uma daquelas coisas que ela sempre carregava pra todos os cantos. Sentei-me no sofá e tentei imitar todos os gestos que ela tinha quando fazia aquele ritual. Tinha escolhido a capa mais colorida da estante dela: era uma edição de 1984, de George Orwell. Enquanto tentava entender qual era o encanto daquele monte de formiguinhas imóveis espalhadas pelo papel, percebi que ela me olhava com muita curiosidade e um sorriso enorme no rosto. Eu, que estava com medo de tê-la irritado e de levar uma bronca, comecei a ficar mais calma, mas percebi que ainda não conseguia brincar com aquilo. Ela levantou-se, foi até o quarto e trouxe de volta uma obra muito mais adequada para a minha idade, feita quase exclusivamente de figuras muito grandes e cheias de cores.
– Aqui – ela disse, com um tom muito suave na voz. – Acho que vai gostar mais desse.
Foi ali que surgiu meu interesse pela literatura. Naquela breve conversa que tivemos, muito mais de gestos e olhares do que de palavras. Naquele carinho sutil. Naquela tentativa de ser como ela era.
A partir de então, comecei a procurar cada vez mais avidamente por livros. Ela era a maior incentivadora desse meu novo hábito, sempre entregando exemplares novos em minhas pequenas mãozinhas. As palavras ditas, no entanto, continuavam sendo quase nulas. Nosso modo de demonstrar amor e cumplicidade uma pela outra era diferente do da maioria das pessoas, e meus pais sempre encaravam aquela situação toda com uma estranheza razoável.
Mas os anos foram vindo e trouxeram com eles uma diminuição no meu interesse. Eu já não fazia mais tanta questão de seguir os passos daquela pessoa tão quieta com quem eu convivia, e outros estímulos foram roubando a atenção que eu dava para os livros. Eu percebia um ar de tristeza nos olhares dela, como se estivesse perdendo o laço que criara comigo.
Foi repentinamente que me dei conta das mudanças que estava vivendo. Assim, de súbito, senti que minha infância ia desaparecendo ao longe e que ia cada vez mais tornando-me uma adulta, perdendo, junto com a inocência, alguns dos meus costumes de criança. O sentimento de confusão foi grande e curioso: estava pronta para tudo aquilo? Eu não sabia bem quem eu era naquele momento, e muito menos quem eu queria ser nos anos vindouros.
Num dia cheio de desassossegos, cheguei em casa e a vi sentada no sofá, em sua posição costumeira, aparentemente inabalável. A conexão que tinha com ela voltou de forma arrebatadora, e quando dei por mim, estava sentada no sofá ao lado dela, compelida a contar tudo o que sentia. Ela voltara a ser aquela figura enigmática que eu admirava quando mais nova. Mas e se… e se o segredo da nossa relação fosse a ausência de oralidade? E se nossa linguagem fosse a dos olhares, dos gestos e dos livros? E se eu estragasse tudo a partir do momento em que eu abrisse a boca?
Olhei para ela e notei que ela percebera minha inquietação. Tinha fechado o livro e olhava para mim de forma interrogativa. Eu não podia mais guardar aquilo tudo ali dentro e fingir que vivia um dia como qualquer outro. Respirei bem fundo e contei.
– Não, eu não te acho ridícula – foi a resposta que ouvi depois dos longos e angustiantes segundos de silêncio que se seguiram à minha pergunta. O sorriso no rosto dela era carinhoso, mas eu ainda estava um pouco em dúvida quanto ao que havíamos vivido e minha percepção estava prejudicada. – Só acho que você é nova demais para uma crise de adultismo. Mas quem entende como funciona a adolescência?
Ela levantou-se e seguiu para o quarto. Poucos minutos depois, voltou com Clarissa nas mãos. Estendeu o livro para mim e disse, no mesmo tom suave que usara dez anos antes:
– Aqui. Acho que vai gostar. Depois conversamos sobre ele.
A verdade é que esse depois nunca veio. Quando terminei o livro, olhei para ela com um sorriso de agradecimento e ela compreendeu.
Depois disso, decidi mudar a estratégia. Passei a também recomendar alguns livros a ela, contando, por meio das narrativas, o que estava sentindo naquele momento de minha vida. Ela logo percebeu e, sentindo a abertura, resolveu fazer o mesmo. Até hoje é assim. Quando notamos uma sucessão de livros tristes nas recomendações uma da outra, sentamos para conversar mais longamente. Caso contrário, seguimos nos comunicando por meio desse idioma tão nosso.

Dez livros que me marcaram até aqui

Recentemente criei um perfil no Skoob (me adicionem lá, gente <3) e fiquei pensando em como alguns dos meus livros lidos tinham me marcado. Foi aí que surgiu a ideia pra esse post.
Isso não é exatamente uma TAG/um meme, mas pode ser se você assim o quiser. De qualquer forma, eu, ironicamente a rainha da trapaça nesse tipo de coisa, estabeleci uma regra pra mim mesma: não repetir autores. Como vou indicar algumas pessoas ao final (e eu fico aqui tentando me convencer de que não é uma TAG), gostaria que quem decidisse fazer o post tentasse seguir o mesmo padrão. Se não conseguir, tudo bem. E não precisam ser necessariamente seus dez livros favoritos da vida, mas sim livros que tenham te marcado por algum motivo.
Sem mais delongas, vamos pra minha lista, que segue a ordem mais aleatória possível.

Os nacionais
1- Dom Casmurrode Machado de Assis
Acho que eu poderia resumir os motivos pra esse livro entrar na lista dizendo que ele é meu favorito da vida e que foi ele que me convenceu de vez que Machado era o melhor autor do mundo. De qualquer forma, todo o fundo psicológico criado para cada um dos personagens consegue me deixar fascinada toda vez que eu releio um trecho. Já até escrevi um trabalho pra faculdade comentando o complexo de inferioridade do Bentinho em relação à Capitu – que mulher, aliás. A psicologia é um tema que sempre me interessou muito, e vê-lo trabalhado dessa forma numa obra de ficção é encantador. Por fim, o estilo de escrita machadiano é de encher os olhos: a ironia, as metáforas, as digressões sempre pertinentes, o pessimismo pungente… ❤

2- Incidente em Antaresde Erico Verissimo
Eu falo desse livro tantas vezes pros outros que ninguém deve aguentar mais. Em primeiro lugar, ele é o livro mais viciante que eu já li: quando cheguei na segunda parte eu não queria largar por nada nesse mundo. Em segundo, Cícero Branco (um dos personagens mais interessantes da obra) é responsável por uma das minhas citações favoritas em toda a literatura. Por fim, (e aqui vai um spoiler de leve) toda a reflexão sobre a questão da verdade como algo impossível de ser alcançado em vida é arrebatadora e deixa qualquer um meio aturdido. Amo com todas as forças.

3- As Meninas, de Lygia Fagundes Telles
Acho que o principal motivo pra esse livro ter me marcado é o fato de que eu me imaginei dentro dele. Eu poderia ser parte daquele grupo de amigas, eu poderia ter vivido tudo aquilo. A história de Lorena, Lia e Ana Clara é muito real, e eu vi muito de mim nas duas primeiras. A obra é comovente, bem pensada e, na minha opinião, o timing de cada detalhe é perfeito. Além disso, dá gosto de ler o fluxo de consciência da Lygia. Os capítulos narrados pela Ana Clara são de uma complexidade incrível e caem feito uma luva para a personalidade da personagem.

4- Vidas Secasde Graciliano Ramos
Quando li Vidas Secas, fiquei impressionada com a habilidade do Graciliano em fazer o leitor entender o que se passa na cabeça de Fabiano, Sinhá Vitória, dos meninos e até de Baleia. Trabalhando constantemente com discurso indireto livre e com uma objetividade típica dele, o autor consegue produzir um belo efeito. Compreender a vida de uma família do sertão de dentro da cabeça deles faz com que o leitor sinta na pele o sofrimento dos menos favorecidos, daqueles que lutam dia após dia para sobreviverem e compreenderem um mundo que não está tão disponível para eles.

5- Capitães da Areiade Jorge Amado
Acho que esse foi o livro mais triste que eu já li (menção honrosa para “Campo Geral”, de Manuelzão e Miguilim, que me fez chorar num ônibus). A história dos meninos do trapiche é quase palpável: todos nós já vimos muitas crianças de rua, pedindo dinheiro para sobreviverem. Uma das passagens mais agridoces da obra é a cena do carrossel: aqueles meninos, apesar de toda a dor que enfrentaram na vida, ainda se encantam, como qualquer outra criança, com uma brincadeira, com algo que pode parecer comum e mundano para muitos leitores com infâncias mais fáceis. 

Da literatura estrangeira
1- O Sol é para Todos (To Kill a Mockingbird)de Harper Lee
O aspecto mais marcante desse livro é ler a história de uma adulta que conta aquilo que via na infância. Scout possui a inocência, a esperança e a honestidade de uma criança comum, e a visão dela torna certos episódios do livro muito mais tristes e/ou revoltantes. Todo o preconceito da cidadezinha de Maycomb, seja com o Tom Robinson, seja com Arthur Radley, fica bem mais evidente a partir dos olhos dela. Harper Lee acerta em cheio na construção de cada personagem e no modo como ela conta essa história.

2- 1984 (Nineteen Eighty-Four), de George Orwell
O que mais me assusta nesse livro é que ele é muito real. Vejo Ministério da Verdade na grande imprensa brasileira. Vejo  a monitoração das teletelas nos governos que vigiam passo a passo seus cidadãos. Vejo muita gente encarando 1984 como um manual de instruções pra uma sociedade futura. Corro o risco de me repetir, mas as cenas que acontecem no Ministério do Amor fizeram com que eu sentisse um mal-estar físico. Eu me coloquei no lugar do Winston, me senti dentro de uma sociedade como a do livro e não gostei nem um pouco do que vi.

3- O Homem Duplicadode José Saramago
Depois de muito me decepcionar com todos os escritores portugueses que eu li e de ouvir com frequência que “Saramago é difícil, Saramago é complexo”, ler os primeiros capítulos desse livro foi uma das coisas mais prazerosas e surpreendentes dos últimos tempos. Deus, como eu amei o estilo literário desse homem! Tudo me fascinou: seu modo de brincar com a pontuação, de escrever os diálogos fora de todo e qualquer padrão já existente, de transmitir os pensamentos do personagem principal… E gente, que história empolgante e inspiradora de reflexões! ❤

4- Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice)de Jane Austen
Sempre ouvi falar muito bem da Jane Austen, mas não me imaginava gostando tanto de Orgulho e Preconceito quanto eu gostei. Acompanhar as mudanças dos dois personagens principais foi delicioso, e nunca shippei tanto um casal na minha vida (e é bem raro eu shippar algo, principalmente em literatura). Mr. Darcy aprende  e cresce muito com seu amor por Elizabeth. Ela também cresce, mesmo sendo sensacional desde o primeiro momento do livro: proto-feminista, a frente de seu tempo, independente para a época e segura de si (mais um caso nessa lista de “que mulher”).

Antes de ir para o último livro da lista, devo dizer que demorei MUITO pra tomar essa decisão e fiquei entre três livros. O primeiro deles foi Assassinatos na Rua Morgue e Outras Histórias, de Edgar Allan Poe, um dos meus contistas favoritos da vida. O que me fez desistir dele, porém, foi que embora eu ame fortemente alguns contos ali presentes (“O Coração Revelador” ❤ , “O Gato Preto”, “A Máscara da Morte Rubra”, “O Poço e o Pêndulo”), outros não me agradam tanto. Achei meio estranho colocá-lo na lista sendo que não seria o livro todo que teria me marcado.
Depois pensei em Crônica de uma Morte Anunciada, do Gabriel García Márquez. Essa obra tem um dos começos mais incríveis que eu já li na vida. Ao mesmo tempo, fiquei pensando no porquê ele teria me marcado tanto além de um “gostei muito da leitura e do modo como Gabinho escreveu o livro”. Depois de dar voltas e mais voltas mentais, achei que ele caberia mais numa lista de “livros muito amor”.
Acabei optando por uma leitura bem recente, mas que me fez refletir por um bom tempo. Acho que isso conta como marcante, certo? =P

5- Desonra (Disgrace), de John Maxwell Coetzee
Acho que o principal motivo desse livro ter me marcado foi o fato de que fui apresentada a um cenário sobre a África do Sul que desconhecia e que me impressionou. Quer dizer, enquanto estamos na escola só acompanhamos a história desse país até o fim do apartheid. Não fazemos ideia de como as coisas aconteceram depois disso, à exceção da vaga ideia de que, apesar de tudo, continua existindo muito racismo por lá. Mesmo a mídia não nos fornece muito material sobre o contexto de qualquer país da África. Descobrir como os sul-africanos têm lidado com racismo, machismo e violência foi algo totalmente novo, e até agora eu não consegui estabelecer uma ideia sobre o certo e o errado dentro do contexto do livro, nem saber direito o que eu acho de cada personagem.

Algumas coisas que achei merecedoras de um comentário final:
– Fiquei bem feliz que a maioria dos livros é de autores brasileiros. Nossa literatura precisa ser valorizada sempre.
– Dada a quantidade de autores que eu li em comparação com a quantidade de autoras, achei lindo que 30% da minha lista seja composta por mulheres. Proporcionalmente, eu diria que elas estão muito bem. Espero que essa porcentagem só cresça com o passar do tempo (e que eu leia cada vez mais mulheres).
– Oito dos livros dessa lista possuem edições pela Companhia das Letras. Achei no mínimo curioso.

Como não se trata de uma TAG, não é obrigatório fazer uma indicação no final, mas quis trazer aqui alguns dos blogueiros cujos livros marcantes me interessam: Amável Formalidade / BeLivs / DeClara / Dreams / Dreams & Dramas / Enfim, veremos / Flaws Made / Imaginatif / Não me venha com desculpas / Ooh, Mry

Uma caixinha mensal de surpresa e amor

Ou “minha experiência com a TAG: Experiências Literárias”.

Não é segredo para os leitores desse blog que eu sou inscrita em uma série de canais de YouTube, e dentre eles temos alguns booktubers, como a Tati que eu citei nesse post aqui. Pois bem, lá no final de outubro eu me deparei com esse vídeo da Mell Ferraz (<3), fiquei encantada com a ideia de uma caixinha mensal com um livro surpresa e, num raro ato meio impulsivo meu, resolvi assinar pra receber o kit do mês de novembro e ver se eu gostava da brincadeira.
Vamos a uma explicação mais detalhada sobre a TAG. Mensalmente, a equipe do projeto convida um curador para escolher um livro que ele ame e, depois de preparar todo um conteúdo extra muito cuidadoso, envia a obra aos associados. Esses curadores são referências das mais diversas áreas do cenário intelectual: além de escritores – Mário Prata, Luis Fernando Verissimo e futuramente Luiz Ruffato, por exemplo -, temos professores de filosofia, médicos, críticos, tradutores e todo tipo de estudiosos de outras áreas do conhecimento. Os livros indicados transitam entre alguns exemplares de não-ficção (como no kit de novembro do qual falarei daqui a pouco), e grandes autores da literatura. Além disso, todo mês os associados recebem um marca página personalizado, uma revista com mais informações sobre a obra, o autor e o curador e algum mimo correspondente ao livro do mês.
Uma das coisas mais legais do projeto, porém, é que a obra do mês seguinte fica basicamente em completo sigilo. A única coisa a que você tem acesso é um breve resuminho com dicas sobre o enredo e sobre o escritor, mas nada além disso. Se você bancar o detetive, descobrir qual o livro do mês seguinte e já o tiver na sua estante, pode contatar o pessoal da TAG para que eles enviem o kit de algum mês anterior, ou até mesmo cancelem a cobrança daquele mês.

Passei tempo demais explicando a experiência e até agora falei muito pouco de como eu a vivi. Como assinei nos últimos dias de outubro, o meu primeiro kit seria o do mês seguinte. Foi fácil perceber, a partir da descrição no site, que a obra indicada pelo Clóvis (professor da ECA, aliás <3) era de não-ficção focada em filosofia. Embora eu goste muito dessa área de estudo, confesso que tenho uma preferência por livros de ficção, então minha ansiedade dividia espaço com um medo de não gostar. Ao mesmo tempo. depois de muito fuçar na internet descobri que a obra de outubro tinha sido essa aqui do Poe, o que me deixou aliviada por ter descoberto o projeto apenas ao final do mês, já que ganhei um exemplar com a obra completa do autor de aniversário.
E então, antes que eu pudesse pensar muito, chegou meu primeiro kit.

Caixinha TAG

Os dois lados da caixinha de 2014/2015, com caricaturas de autores consagrados

Essa caixinha já era uma delícia de receber, o que me deixou três vezes mais empolgada do que já estava. Meu autocontrole para tirar as fotos antes de abrir tudo foi impressionante, mas como eu já tinha estabelecido que se gostasse da experiência esse post sairia, consegui me conter. À medida que fui desbravando a caixinha, fui também me deparando com outras pequenas alegrias.

Abertura kit

Primeiro kit: cartinha de boas-vindas, folhetinho explicando a experiência, um pouco do presente do mês e o embrulho com livro e revistinha.

Quem recebe o primeiro kit surpreende-se com o carinho que eles dedicam aos novos associados: além das etiquetas personalizadas, você é presenteado com uma cartinha de boas-vindas e com um folheto que explica um pouco mais de como funciona a TAG. Até dezembro de 2015, o livro vinha embrulhado com papel microondulado e barbante. A mudança de pacote foi um dos pontos altos do primeiro kit desse ano, mas não coloquemos os carros na frente dos bois.

Ímãs Nietzsche

Receber um presente personalizado para a obra é uma das partes mais deliciosas de receber a caixinha todo mês. Além de me questionar sobre o livro, eu fico sempre me perguntando qual será o mimo do mês. Em novembro, a surpresa foram ímãs do Nietzsche. Minha geladeira agradece a filosofia hahahaha ❤

Livro, marca-página e revista

Desvendado o mistério, a obra indicada pelo Clóvis foi Aprender a Viver, do filósofo francês Luc Ferry. Trata-se de uma introdução à filosofia, escrita para aqueles que querem um primeiro contato com o tema. Na revistinha, que é deliciosa de ler e dá pra devorar em poucos minutos, Clóvis conta um pouco de sua ligação com esse campo do conhecimento e explica a escolha da obra. Temos também muitas informações sobre o autor, sobre como surgiu o livro indicado e uma série de “ecos da leitura”, seção na qual somos apresentados a complementos diversos, que vão desde mais sugestões de leitura sobre o tema até filmes que possam interessar quem gostou da obra. Toda a pesquisa envolvida para a confecção da revista é de um cuidado lindo. No final, um teaser do livro do mês seguinte.

E chegamos em dezembro.
Embalagem 2014-2015

O que acontece quando você fez um trabalho que envolve Gabriel García Márquez pra faculdade? Isso mesmo, você mata a charada do último kit do ano na hora hahahaha…
Confesso que embora isso tire o “elemento surpresa” da coisa, também ajuda a te deixar mais ansioso. Eu não tinha o livro e adoro Gabo, então mal podia esperar para que o kit de dezembro chegasse, mesmo sabendo que talvez eu não fosse ler a obra tão cedo. Sabe como é, sou daquele tipo de pessoa que gosta de ter o livro comigo e vê-lo na estante mesmo que só vá lê-lo daqui mais de ano HAHAHA. Minha ansiedade para receber o mimo do mês, então, era enorme.

Selos Gabo

Selos iguais aos que foram feitos pelo governo colombiano em comemoração ao Prêmio Nobel de Literatura de 1982, gente! Como não amar?
Infelizmente o hábito de enviar cartas não é mais tão comum hoje em dia. Além disso, mesmo que esses fossem os selos originais e que eu pudesse usá-los, não sei se teria coragem de me desfazer de qualquer um deles ❤ De qualquer forma, guardarei com muito carinho.

Livro, marca-página, revista e selos

Preciso elogiar a arte dessas revistas: as ilustrações das capas são LINDAS!

Janeiro seria um mês bastante especial pra TAG e pra mim. Além de mudanças como um todo no kit, o curador do mês era Luis Fernando Verissimo, meu cronista favorito e escritor de alguns dos textos mais deliciosos que eu já li. Já até escrevi textos inspirada no estilo dele. Aliás, aproveito o espaço pra recomendar fortemente o conto “A Mancha”, presente no livro Os Últimos Quartetos de Beethoven e Outros Contos, que mistura humor e drama de um jeito que só Luis Fernando consegue fazer. Ô família maravilhosa ❤
Também desvendei rapidamente o mistério do autor recomendado por ele, mas preferi controlar a ansiedade e não procurar o livro para manter pelo menos uma parte da surpresa.

Caixinha nova

Nova caixinha, com livros e os dizeres “este kit contém amor”

Dentre as maiores novidades de 2016 está o redesign da caixinha. Eu gostava muito da anterior, talvez porque nela estivessem alguns dos meus autores favoritos, mas achei que o novo modelo ficou lindo e entendo a mudança. A alteração da embalagem, porém, foi muito mais interessante.

Embalagem nova

Nova embalagem personalizada para cada obra. Borrei as coisas escritas pra não estragar a surpresa de quem ainda não recebeu o kit de janeiro

A ideia da nova embalagem é que agora você possa encaixá-la na sua estante e guardar a revista junto com o livro. Personalizadas, elas vêm com alguma referência ao enredo – no caso, como se trata de um livro policial, a arma – e o nome do autor, que eu fiz questão de borrar pra não dar spoilers caso algum associado que ainda não recebeu o kit chegue nesse post. Achei o primeiro exemplar lindo e fiquei bem feliz com a mudança, já que morria de dó de jogar o papel microondulado fora.

Arma de papel

Já imaginava que o presente teria a ver com toda a aura policial da obra e do autor, mas achei uma graça eles enviarem uma arminha de papel com citação do livro para servir como marca página ou como decoração para a seção de obras policiais da estante. Detalhe que demorei mil anos pra fazer com que essa foto ficasse decente, até porque errei o lugar do dedão em algumas delas HAHAHA

“Mas Luiza, não é mais fácil – e mais barato – eu simplesmente comprar um livro numa livraria e pronto?”. Sem dúvida alguma, mas o prazer de receber a caixinha da TAG é totalmente outro. A questão não é apenas a obra do mês: é o carinho envolvido em todo o projeto. Quer dizer, só o processo de procurar uma referência intelectual para recomendar um livro já demonstra todo um cuidado, mas como se não bastasse isso, eles se preocupam em fazer uma boa pesquisa para a revistinha e em investir tempo para pensar num presente personalizado e elaborá-lo. Pra vocês terem uma ideia, eles já entregaram uma mini-vodka com rótulo customizado para acompanhar um Dostoiévski. Não me imagino cancelando a assinatura e mal posso esperar pelo kit de fevereiro, que, dessa vez, vai ser uma completa surpresa.
Se você se interessou pela TAG, pode encontrar ainda mais informações no site ou na página deles no facebook. Ah, e se decidir assinar depois de ler o meu post, coloca lá que recebeu indicação minha, assim eu recebo uma ecobag no mês que vem =P

TAG/Meme: Sentimentos Literários

Das curiosidades que esse blog encerra: leio vários livros por ano, mas falo pouco de literatura por aqui. Geralmente concentro meus comentários literários no final do ano quando faço minhas “retrospectivas”. Por que tanta ausência?
Como não tenho lá muita paciência pra escrever uma resenha pra cada livro que eu leio (até porque eu sou meio prolixa e iria gastar tempo demais com cada uma delas), resolvi mudar isso respondendo uma tag/meme sobre o assunto. Escolhi a dos Sentimentos Literários, que eu vi pela primeira vez lá no canal da linda da Tatiana Feltrin.

1- Um livro que fez você se sentir feliz

Essa categoria é uma das mais dúbias que eu já encarei. Eu sempre fico feliz e encantada com uma leitura boa. Sabe quando o estilo de uma obra te agrada tanto, mas tanto que mesmo que ela tenha um final doloroso, você fecha o livro com aquele sentimento de satisfação? Pois bem, fiquei na dúvida se deveria escolher algo assim ou se partiria para um caso em que o enredo tenha me deixado felizinha, sorrindo pelos cantos. Optei por um livro que proporcionou um pouco das duas coisas, mas devo dizer que Dom Casmurro, de Machado de Assis, e Incidente em Antares, de Erico Verissimo, por exemplo, me deixaram bem alegre apesar dos enredos tristes.
Sem mais delongas, a escolha foi Orgulho e Preconceito, da Jane Austen. Já aconteceu de vocês sorrirem involuntariamente com o enredo de uma obra? Então… as pessoas que passaram por mim no transporte público enquanto eu lia O&P devem ter achado que eu era louca, porque eu simplesmente não conseguia evitar. Já falei parcialmente disso antes, mas o modo como Austen constrói o relacionamento da Lizzie com o Mr. Darcy é de encher os olhos! Você vai acompanhando cada pequeno passo da história deles dois e torcendo pra que os dois percebam seus erros e fiquem juntos logo (quem diria, uma Luiza shippando casais em livros). Acabei optando por esse livro porque o enredo me deixou felizinha e dona Austen escreve muito bem, então a leitura foi bem prazerosa.

2- Um livro que fez você se sentir triste

Foram poucos os livros que me deixaram triste na vida a ponto de me fazer chorar, mas Capitães da Areia, de Jorge Amado, bateu todos os recordes. Não sei se foi o período em que eu li, mas ô livro desgraçadamente triste! Chorei mais de uma vez com o sofrimento dos personagens. Quer dizer, acompanhar crianças roubando para não passar fome deveria amolecer o coração de qualquer um. O prêmio, porém, vai para um dos capítulos sobre o Sem-Pernas, o “Família”. Você, que leu a obra, provavelmente sabe o que eu quero dizer: precisei parar de ler de parágrafo em parágrafo pra respirar fundo e conter as lágrimas. O que é esse capítulo, genteeee! Definitivamente uma das coisas mais tristes que eu já li na minha vida.

3- Um livro que fez você sentir raiva

Por mais que eu não goste de muitos personagens na literatura, nenhum outro livro me fez odiar o personagem principal em aproximadamente vinte páginas como Lolita, de Vladimir Nabokov. Nem o Bentinho conseguiu essa façanha! Já vi muita gente defendendo o Humbert Humbert com aquele argumento de que é uma história de amor. NÃO. Não existe amor entre um homem adulto e uma menina de doze anos. Existe abuso, existe pedofilia, nunca romance! A cada linha que se passava eu ia cultivando um ódio maior da situação toda. Por mais que o autor seja muito bem sucedido em trazer o ponto de vista do pedófilo, com suas justificativas e seus “sentimentos verdadeiros”, toda a situação só conseguia me fazer mal.

4- Um livro que fez você sentir nostalgia

Aqui vai mais uma categoria dúbia: nostalgia de tempos que você nunca viveu ou do seu próprio passado? Que tal um livro pra cada caso?
Pois bem, por mais bizarro que possa parecer senti nostalgia de tempos nunca vividos com As Meninas, da Lygia Fagundes Telles. Sim, uma história que se passa na nossa maravilhosa ditadura militar, “página infeliz da nossa história”, o que eu tenho na cabeça? A verdade é que decidi por esse porque eu senti que eu poderia tranquilamente ser uma das três, então acho que isso é o mais próximo que eu cheguei desse tipo de sentimento nostálgico.
No quesito de livros que te deem saudades do seu próprio passado, optei por Desenhos de Guerra e de Amor, do Flávio de Souza. A primeira leitura foi quando eu tinha uns onze/doze anos e eu DEVOREI tudo em poucas horas. Até hoje, quando pego ele na mão eu releio vários e vários trechos e me encanto igual. Adoro livros com mais de um narrador e esse foi meu primeiro contato com obras do tipo, então tenho um carinho maior ainda por ele. Típico caso de obra infanto-juvenil que agrada muito adulto ❤

5- Um livro que fez você sentir medo

Eu não sou de me impressionar fácil com histórias de terror, a ponto de sentir medo real, então essa não foi uma categoria que teve muita concorrência. Edgar Allan Poe tem um efeito raro sobre mim, mas não vou escolher uma coletânea dele. Até porque o único livro que eu li completo dele (até agora) foi Os Assassinatos da Rua Morgue e Outras Histórias, obra com alguns contos policiais que não se encaixam na categoria. Cito, porém, meu conto favorito dele: “The Tell-Tale Heart”. Até hoje não sei se a pulsação que eu ouvia era fruto da minha imaginação graças ao texto envolvente de Poe ou se era meu próprio coração acelerado pela tensão do conto. E já que eu não citei um livro completo, aqui vão outros contos que também me deixaram arrepiada: “The Black Cat”, “The Masque of the Red Death” e “The Pit and the Pendulum”.

6- Um livro que fez você ficar surpresa

Depois de muitas experiências frustradas com autores portugueses, peguei O Homem Duplicado, de José Saramago, com um sério medo de não gostar. Antes da metade do livro, porém, eu já estava querendo abraçar o Saramago, esse cara que eu mal tinha começado a ler mas já considerava pacas. Não só o estilo literário dele me conquistou muito facilmente e com bastante intensidade, como também a narrativa me empolgou de uma forma que é difícil descrever. Fiquei (exageradamente) envolvida com os dramas de Tertuliano Máximo Afonso, professor de História, e embora esperasse um final ruim, não estava preparada para o que a obra tinha a me oferecer. E que delícia que foi passar o final do meu caminho para casa refletindo sobre a questão da identidade graças a esse texto maravilhoso.

7- Um livro que provocou decepção

Sei que muita gente vai dizer que cometi uma heresia aqui, mas lá vamos nós: A Desumanização, do Valter Hugo Mãe. Reconheço que tem alguns trechos bem pesados na obra, mas eu estava esperando um livro que me deixasse devastada. A verdade, porém, é que além da narrativa não ter me tocado como eu esperava, ela sequer me convenceu suficientemente. Não sei se o grande erro foi eu ter começado a leitura com muitas expectativas pelo tema, mas o luto que Halla enfrenta aos onze anos de idade parece mais apropriado para uma pessoa mais velha. Como passei por uma perda muito forte quando criança, não consigo acreditar que uma menina da Islândia seja tão diferente da maioria e encare essa experiência de uma forma tão mais profunda do que a mente de uma criança consegue atingir. Sei que a mãe não ajuda muito, mas o pai está sempre ao lado dela.
Talvez esteja tomando tudo muito ao pé da letra, e sei que a idade está adequada para que alguns dos acontecimentos seguintes sejam impactantes, mas ai… na segunda parte eu já estava um pouco incomodada com o enredo, sabe? Uma pena.

8- Um livro que fez você se sentir angustiada

Até pouco tempo atrás o título de livro mais angustiante que eu já li na minha vida pertencia indubitavelmente a O Processo, de Franz Kafka – porque se já não bastasse você querer morrer o livro inteiro, aquele final é de uma crueldade ímpar. Eu não contava, porém, com 1984, do George Orwell. O que esse livro me fez passar eu não desejo pra ninguém (embora recomende a leitura pra todo mundo hahaha). Quer dizer, eu já fiquei apavorada com a possibilidade – muito mais palpável do que parece – de um dia vivermos numa sociedade como a do livro, mas a terceira parte me fez sentir um mal estar FÍSICO. Juro pra vocês: meu coração pulava, meu estômago dava voltas e eu fiquei tão tensa que minha mão ficou até vermelha por causa da força com que eu segurei o cano do metrô. Maravilhoso!

9- Um livro que fez você se sentir confusa

Não escolhi aqui um livro confuso, mas sim uma obra que me deixou meio atordoada por alguns motivos: Ninguém Escreve ao Coronel, do Gabriel García Márquez. Não conseguirei explicar essa sensação sem dar spoilers do livro, tá bem? Então tá bem.

Quando meu pai me deu um exemplar assim que terminei o Ensino Médio, ele fez questão de frisar na dedicatória que eu poderia crescer e encarar novas fases da vida, mas eu nunca deveria vender meu galo. À medida que ia lendo, porém, eu quase fazia coro com a mulher do coronel: eles estavam à beira da miséria, não seria melhor vender o galo? Foi depois de terminar o livro e refletir muito sobre tudo aquilo que eu entendi e concordei com a decisão do coronel. Não vale a pena desistir de seu passado ou de sua essência por nada. Mesmo que as coisas estejam difíceis, mesmo que seja dolorido não ceder.

Livros, séries, filmes: meus personagens icônicos

Sabem aquelas pessoas que dizem “ai, eu sempre trapaceio as tags” ou coisas do tipo? Eu resolvi partir pra um novo nível: criar uma coisa nova a partir de uma tag existente. Desde que a Lí fez esse meme sobre séries eu fiquei com vontade de falar sobre meus personagens favoritos das poucas séries que acompanho. No entanto, esbarrei numa coisa que me incomodou bastante: os quatro que eu queria citar eram homens. E as personagens femininas?
Foi com essa ideia na cabeça que eu decidi fazer um post com doze personagens icônicos na minha vida: quatro grandes mulheres de filmes que eu gostei, quatro grandes homens de séries que eu vejo e dois protagonistas de cada gênero de livros que amo.
Antes de começar, um aviso: algumas das descrições têm pequenos spoilers sobre o enredo do filme/série/livro. Leia por sua própria conta e risco.


As quatro personagens icônicas dos filmes:

1- Mulan, de Mulan (1998)
Gif Mulan
Existem tantas coisas que tornam Mulan uma personagem sensacional que é até difícil escolher por onde começar. Depois de muito penar para tentar se encaixar em uma sociedade que encara a mulher como uma criatura destinada a ser a “perfeita esposa”, Mulan encontra sua verdadeira imagem ao se disfarçar de homem para evitar que seu pai, com a saúde bem debilitada, morra ao ir lutar na guerra. É ali que ela percebe que sua maior força é sua inteligência, e, seguindo nesse caminho, a grande heroína salva a China sozinha. É isso que eu chamo de girl power.
“Mas Luiza, tinha de ter animação?” Tinha, sim. Primeiro porque o filme da Disney é baseado num poema chinês, e a história de Mulan vai muito além da animação. Segundo porque eu ouço muito esse discurso de que as “princesas” da Disney são péssimos exemplos, e é sempre bom “contra-argumentar”. Quer mais provas? Dá uma olhada nessa lista com 27 momentos empoderadores nos mais diversos filmes do estúdio.

2- Skeeter e Aibileen, de Histórias Cruzadas (2011)
gif the help
Achei que seria sacanagem separar duas personagens que se completam tanto, mas ao mesmo tempo seria impossível falar de uma sem comentar da outra. Skeeter e Aibileen procuram trazer à tona uma história que ninguém quer ouvir, mas que elas acreditam terem o direito de contar. Com a ajuda uma da outra, elas desnudam o racismo dos subúrbios sulistas dos Estados Unidos, incomodando toda uma sociedade cujo conforto prescindia dessa hierarquia de brancos sobre negros.

3- Malévola, de Malévola (2014)
gif maleficent
Se a Malévola lá do filme de 1959 já é uma personagem interessante por ser uma das maiores vilãs das histórias infantis, esse live-action de 2014 trouxe uma série de nuances novas para a “antagonista”. Interpretada por Angelina Jolie, Malévola deixa de ser apenas uma vilã com motivos aparentemente mesquinhos para transformar-se em uma personagem com a qual muitos de nós podemos nos identificar: enganada, sua vida adquire um gosto amargo até que ela reencontra o amor por meio de uma adolescente com quem ela vai construir uma bela relação de mãe e filha.

4- Christine Collins, de A Troca (2009)
gif troca
Dose dupla de Jolie!
O que mais encanta na história de Christine Collins é que o filme é baseado em fatos reais. Mãe solteira na década de 1920, Christine luta com unhas e dentes para recuperar seu filho desaparecido e provar que o menino que entregaram para ela não é Walter Collins. Ela desafia as autoridades, é desacreditada, confinada a um hospício e mesmo assim não desiste de descobrir o paradeiro de seu filho.


Os quatro personagens marcantes de séries:

1- Sherlock Holmes, de Sherlock
gif sherlock
Como se eu já não gostasse de Sherlock Holmes nos livros do Conan Doyle, Benedict Cumberbatch parece ter nascido para interpretar o detetive. Numa ótima adaptação do personagem pro século XXI, o “high-functioning sociopath” mais querido do mundo esbanja inteligência e sarcasmo, é deliciosamente observador e dedutivo, e, apesar de ter dificuldade em socializar com “pessoas comuns”, ainda consegue demonstrar (mesmo que de forma enviesada) o carinho que sente por aqueles que ama.

2- Dean Winchester, de Supernatural
gif dean
Desde que comecei a acompanhar a série, a coisa que eu mais amo em SPN é o amor e o carinho que os Winchesters sentem um pelo outro. Dean foi como um pai para seu irmão (mesmo com a diferença de quatro anos entre os dois) e está disposto a ir para o inferno – literalmente – para salvar a vida de Sam. Se essa já não fosse uma razão boa o suficiente para amar o personagem, ele ainda consegue ser muito divertido, inteligente, leal, intuitivo, corajoso… e ele salva o mundo do apocalipse nas horas vagas.

3- Raymond Reddington, de The Blacklist
gif red
Red é um dos personagens mais curiosos que eu já tive a felicidade de acompanhar. Criminoso de inteligência ímpar, Reddington é cheio de mistérios e tem uma experiência de vida impressionante. Apesar de ser um protagonista muito prático (“you talk too much”), as cenas mais gostosas de asssistir são aquelas em que ele começa a fazer um relato emocionante em um momento tenso, seja com um episódio da sua vida, seja com uma lista de coisas que pretende fazer antes de morrer.

4- Gregory House, de House
gif house
House é, basicamente, o Sherlock da medicina (e pra quem acha que eu to exagerando…). Com um conhecimento médico fora do comum, House sempre é convocado para descobrir o que há de errado com pacientes que apresentam casos aparentemente insolúveis e doenças raríssimas (parabéns pra equipe de roteiristas pelo tanto de pesquisa que eles faziam, aliás). Além disso, House era um personagem muito amargo e isso rendeu uma quantidade enorme de citações intrigantes sobre a vida.


Quatro personagens maravilhosos dos livros:
(esses ficam sem imagem porque me recuso a pegar capa do livro/gif de adaptação cinematográfica)

1- Atticus Finch, de To Kill a Mockingbird/O Sol é Para Todos (Harper Lee)

ATENÇÃO: eu não pretendo ler Go Set a Watchman por causa dessa polêmica com a advogada, então a imagem que tenho de Atticus diz respeito única e exclusivamente ao que li em TKAM.
Aparentemente personagens que enfrentam o racismo no sul norte-americano me agradam bastante, já que Atticus também entra nessa lista muito por causa desse motivo. Ele protagoniza uma das cenas mais bonitas da literatura (e do cinema, na adaptação de 1962) ao defender Tom Robinson. Outra coisa que me toca é a forma como ele cria seus filhos, transformando a narrativa de Scout sobre o pai em uma história muito emocionante. Encerro com uma citação do próprio: “You never really understand a person until you consider things from his point of view… until you climb into his skin and walk around in it“.

2- Elizabeth Bennet, de Orgulho e Preconceito (Jane Austen)

Lizzy é uma mulher à frente de seu tempo. Em pleno início do século XIX, ela não tem medo de lutar pela sua felicidade e só aceita casar-se por amor. Nesse caminho, ela demonstra muita inteligência e coragem, com diálogos afiadíssimos, nos quais ela inclusive enfrenta a aristocracia: a cena final dela com Lady Catherine de Bourgh é uma das melhores coisas do livro inteiro. Outro aspecto de Lizzy que se sobressai é sua capacidade de crescer ao longo da obra, de perceber seus erros e aprender com eles, sempre disposta a formar uma nova opinião sobre alguém.
(Adendo: Elizabeth e Mr. Darcy são meu casal favorito da literatura justamente porque eu vi o quanto os dois iam crescendo “juntos” ao longo do enredo ❤ )

3- Winston Smith, de 1984 (George Orwell)

Ai, esse livro. 1984 é uma série de facadas no coração: quando você acha que está se recuperando de uma, surge outra pior. Nesse universo assustador em que se passa o livro, a personalidade de Winston é um alívio e um breve sopro de esperança. O personagem passa o livro inteiro acreditando em um mundo melhor e lutando para mudar aquele em que vive. Os diálogos dele com O’Brien na terceira parte do livro são de encher os olhos pela inteligência de ambos (enquanto você não está com o coração acelerado de tanta aflição, claro).

4- Capitu, de Dom Casmurro (Machado de Assis)

Lógico que não podia faltar a melhor personagem do meu livro predileto da vida. Capitu é uma das mulheres mais maravilhosas da literatura! Bentinho passa a obra inteira tentando convencer o leitor de que sua esposa foi adúltera, e embora isso funcione com algumas pessoas, no meu caso só fez com que eu gostasse mais dela e menos dele. Capitu é forte, decidida, inteligente e corre atrás daquilo que quer. Ela não tem medo de se impor, de colocar seu ponto de vista. Capitu não mede esforços para que ela e Bentinho possam se casar, enquanto ele chega a ter dificuldade para perceber os sentimentos de ambos; tem uma paciência fora do comum para aguentar o marido doentio por bastante tempo; e concorda com Santiago em levar a separação a cabo. O único erro dela é continuar mandando cartas para Bentinho, mas levando em consideração que a história de Dom Casmurro se passa no século XIX…

Agora eu queria saber de vocês: o que acharam da lista? E quais são os personagens mais icônicos que vocês conheceram até agora?

Os melhores livros do meu 2014

Pensei em escrever uma retrospectiva do ano, mas ela seria, em sua maior parte, um muro de lamentações. Pensei em participar de um meme do rotaroots e falar quais os cinco sentimentos que eu gostaria de deixar em 2014, mas a lista ultrapassa o limite de cinco. Pensei em muitas coisas e todas levariam a um post chato e cheio de mimimi.
De fato, são poucas as coisas que aconteceram nesse ano e que eu quero guardar pra minha vida. Dentre elas, estão os livros que li esse ano. Pensei então em fazer uma retrospectiva literária igual a do ano passado, mas esbarrei no fato de que li mais que o dobro dos livros de 2013 e que o post ficaria ou longo demais ou superficial demais. Por isso, decidi comentar apenas meus três favoritos do ano e alguns destaques em certas áreas (poesia, infantil, humor, acadêmico, projeto gráfico). Espero que gostem.


Meus livros favoritos:

Quincas BorbaTítulo: Quincas Borba
Autor: Machado de Assis
Editora: Penguin-Companhia das Letras
Ano da edição: 2012
Ano de publicação: 1891
Introdução: John Gledson.

Primeiramente, Machado é Machado. Ele é meu autor favorito na vida, então fica difícil dizer qualquer coisa sem esbarrar numa clara predileção que eu tenho pela narrativa machadiana. De qualquer forma, Quincas Borba foi uma leitura deliciosa em vários sentidos. Dos três livros mais aclamados de Machado, em Quincas Borba é que fica mais claro o modo como o narrador prega peças no leitor. Como Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro são narrados pelos personagens principais, o leitor mais desavisado se deixa levar pelas artimanhas de ambos (principalmente do maluco do Bentinho) e, muitas vezes, nem percebe que está sendo enganado. O narrador de Quincas Borba, ao contrário, joga nas costas do leitor a culpa por “ver coisas demais” e juntar coincidências aleatórias para se enganar, quando na verdade parece ser um método que o autor utiliza para mostrar ao leitor o quanto a sociedade impõe certos valores e acaba por corromper nossas mentes. Os personagens são outro deleite, principalmente Sofia. É maravilhoso observar as várias nuances e camadas de sua personalidade e como elas acabam se manifestando em suas ações. Ah, as mulheres de Machado <3… E o enredo como um todo é, como sempre, sensacional!
Quanto à edição do selo Penguin da Companhia das Letras, tenho muito a elogiar! A capa segue a linha da coleção de clássicos de ficção da Penguin britânica, o projeto gráfico é clássico sem ser antiquado. As mais de cem notas de rodapé explicativas auxiliam em muito o leitor, fornecendo base histórico-cultural importantíssima para compreensão de certas passagens e facilitando a vida de alguém que não tenha disponibilidade de pesquisar alguns detalhes. A minha única crítica é com relação à “introdução” de John Gledson. Apesar de interessantíssima, ela caberia mais como posfácio, já que traz spoilers da história e a visão do pesquisador sobre momentos do enredo. O melhor seria permitir ao leitor que terminasse a obra, tirasse suas próprias conclusões e só então se aventurasse pelas considerações de Gledson. De qualquer forma, no geral é um edição muito bem cuidada.

IncidenteTítulo: Incidente em Antares
Autor: Erico Verissimo
Editora: Editora Globo
Ano da edição: 1995
Ano de publicação: 1971

Erico Verissimo é o autor preferido do meu pai e esse livro em especial é também seu favorito. Por causa das recomendações dele, eu já tinha lido Clarissa, Música ao Longe e Caminhos Cruzados. Decidi que minha próxima leitura do autor seria Incidente em Antares, mas acabei demorando para pegar o livro de fato e começar a lê-lo. Hoje me pergunto o porquê de ter passado tantas outras obras na frente dele.
Li esse livro em sete dias e mais ou menos no seguinte ritmo: 60 páginas por dia na primeira parte do livro, 100-120 por dia na segunda (e só parava porque eu tinha de comer, dormir… viver, sei lá). Com uma narrativa envolvente e empolgante, eu não queria parar a leitura. Era uma tortura interromper por algum tempo e ficar sem saber o que aconteceria com os personagens a seguir. Incidente em Antares é aquele tipo de livro que te faz passar pelas mais diversas emoções durante a leitura: dei risada, fiquei triste, ansiosa, irritada (Tibério, essa é pra você, um beijo), e às vezes tudo ao mesmo tempo. Foi uma obra que me fez refletir intensamente sobre o modo como vivemos as nossas vidas. Achei incrível que, usando a faceta de um realismo mágico, Erico (esse inocente útil =P) escancara toda a hipocrisia e a podridão da sociedade. Antares, que parece ser uma cidade do interior pequena e demasiado provinciana, é na verdade um retrato de todo um país, de todo um planeta! E nós todos nos comportamos como os moradores, escondendo, fingindo, omitindo. Guardarei uma das falas de Cícero Branco na cena do coreto como citação para a vida: vivemos, sim, um constante baile de máscaras do qual temos medo de sair.
A edição que li faz parte de uma coleção da obra completa do autor, publicada pela Editora Globo. Em capa dura, estava muito bem conservada apesar dos anos e até mesmo o amarelo das páginas não foi suficiente para atacar minha rinite. Achei as cores da capa muito acertadas para o conteúdo da obra e a diagramação seguiu a mesma linha do que acontece em Quincas Borba.

As MeninasTítulo: As Meninas
Autora: Lygia Fagundes Telles
Editora: Companhia das Letras
Ano da edição: 2011
Ano de publicação: 1973

Sempre tive curiosidade de ler esse livro de tanto ouvir sobre o relato de tortura que ele contém, mas nunca imaginei que fosse gostar do jeito que gostei e me envolver como me envolvi. À medida que lia, me identificava cada vez mais com as personagens e achava que aquele poderia tranquilamente ser meu grupo de amigas, ou até mesmo que eu poderia ser uma delas, já que via em mim um pouco de Lorena e um pouco de Lia. Ao mesmo tempo, a relação que as três cultivam me fez questionar o tipo de amizade que levamos hoje. Lena, Lião e Ana Turva conhecem-se muito bem e o laço entre elas é rompido no momento certo, evitando desgastes, e deixando nelas uma lembrança bonita de tudo que viveram juntas. É difícil falar desse livro sem dar spoilers do final, mas acredito que se algo tivesse transcorrido de outra maneira naquela situação, elas levariam consigo traumas, e não belas memórias. Já li opiniões de pessoas que, ao final da história, concluíram que elas nunca foram amigas. Eu, ao contrário, lembrei-me da frase final do filme Conta Comigo (não vou compartilhar a frase porque o filme merece ser visto). A narrativa da autora é um caso a parte: além de eu já gostar de livros com mais de um personagem como narrador, em As Meninas eu senti que entrava nas mentes das três protagonistas. Lygia consegue traduzir perfeitamente o que elas pensariam/sentiriam em cada situação, e até mesmo os diálogos são característicos. As narrações e diálogos de Ana Clara, por exemplo, são ex-tra-or-di-ná-rios, com os delírios, as mudanças constantes, e até as incompletudes que combinam perfeitamente com uma menina drogada. Me apaixonei pela escrita de Lygia!
Curiosamente, nessa edição parece acontecer o oposto do que ocorre em Quincas Borba: todos os paratextos são pós-textuais, evitando que o leitor tome spoiler na cara (e o texto da própria autora tem um gigantesco) e dando a ele a possibilidade de digerir a leitura antes de adentrar naquilo que outros pensem a respeito. Em compensação, senti falta de notas de rodapé, pelo menos nas expressões em outras línguas. Achei a capa curiosa, causando uma mistura intrigante de delicadeza e caos. Ela também me deu uma sensação de tecido que a Lia usaria, sei lá hahaha

Destaques do ano:

Poesia
Bandeira s2Título: 50 Poemas Escolhidos pelo Autor
Autor: Manuel Bandeira
Editora: Cosac Naify
Ano da edição: 2011

Além de poder reler algumas das minhas poesias favoritas do autor, reunidas num conjunto fantástico, ainda tive a oportunidade de ouvir o próprio Bandeira declamando algumas dessas poesias no CD que vem junto com o livro. Um beijo pra Cosac por essa edição linda!

Infantil
aliceTítulo: Alice no País das Maravilhas
Autor: Lewis Carroll
Editora: Cosac Naify
Ano da edição: 2010

Como se não bastasse uma história deliciosa, que é infantil e adulta ao mesmo tempo, a edição ainda conta com pós-textuais muito interessantes (como até mesmo uma lista de adaptações cinematográficas), ilustrações lindíssimas e esse formato fofo arredondado nos cantos!

Humor
manualTítulo: Manual de Sobrevivência dos Tímidos
Autor: Bruno Maron
Editora: Lote 42
Ano da edição: 2013

Sei que isso pode parecer um sacrilégio em um ano que li Luís Fernando (<3) e Millôr, mas é que esse livro e essa editora foram achados que a Copa me proporcionou e parece que Bruno Maron escreveu um manual da minha vida! Tímidos, vale muito a leitura!

Acadêmico
otelo brasileiroTítulo: O Otelo Brasileiro de Machado de Assis
Autora: Helen Caldwell
Editora: Ateliê Editorial
Ano da edição: 2008

Num semestre em que tive de ler muitos acadêmicos não tão interessantes, esse livro foi um refresco! Pra quem gosta de Machado e/ou de Dom Casmurro, e principalmente pra quem defende a Capitu (ou quer entender os defensores), recomendo FORTEMENTE esse livro!

Projeto gráfico
avenidaTítulo: Avenida Niévski
Autor: Nikolai Gógol
Editora: Cosac Naify
Ano da edição: 2012

Como não amar um livro desses? Além de um enredo interessante, ele (junto com Notas de Petersburgo, outro livro com projeto gráfico muito bom) é “embrulhado” num papel que simula um jornal da época e, dentro, as páginas são diagramadas de forma bastante curiosa. O livro é dividido horizontalmente ao meio e as metades recebem fontes de duas cores diferentes. Ao terminar a primeira metade, o leitor deve virar o livro de cabeça pra baixo e ler o resto do livro. Isso sem contar as belas ilustrações, também coloridas em laranja e roxo. É como se fôssemos levados a caminhar pelos dois lados da Avenida Niévski, indo e voltando.

E se o texto já ficou longo assim sem eu ter falado com profundidade sobre todos os livros que eu li, imaginem se eu tivesse comentado todos! =P